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No dia 31 de julho, celebra-se o Dia da Mulher Arquiteta e Urbanista, uma data que simboliza a resistência, a luta por visibilidade e a busca por equidade em uma profissão como tantas historicamente marcadas por desigualdades de gênero. A criação dessa data não foi um acaso, mas o resultado de anos de mobilização, pesquisas e articulações lideradas por mulheres que desafiaram estruturas institucionais para garantir que as vozes de 64% da categoria, segundo o II Censo das Arquitetas e Arquitetos e Urbanistas do Brasil, fossem ouvidas. Entre essas vozes está a da arquiteta e urbanista Ana Laterza, cuja trajetória profissional e acadêmica reflete um compromisso incansável com a justiça social e a representatividade na arquitetura.
Formada pela Universidade de Brasília (UnB) e com especialização em Restauro e Valorização pelo Politécnico de Turim (Itália), Ana Laterza é mestre em Teoria e História da Arquitetura e atua há anos na área de patrimônio cultural e projetos públicos. Como servidora concursada do CAU/BR desde 2014, ela transcendeu as atribuições formais do cargo, dedicando-se a pesquisas e ações que evidenciam as desigualdades de gênero e raça na profissão. Foi no período em que assessorou a 1ª Comissão Temporária de Equidade de Gênero do CAU que ela mergulhou em um trabalho minucioso: tabulou dados, ouviu histórias e, mesmo em meio à pandemia, apresentou o 1º Diagnóstico de Gênero na Arquitetura e Urbanismo, um marco que expôs as disparidades enfrentadas por mulheres na área. Esse estudo foi crucial para que o Conselho oficializasse o 31 de julho como o Dia da Mulher Arquiteta, data que dialoga com o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho), reforçando a interseccionalidade da luta. A iniciativa inspirou o próprio IAB. Em 2020, o IAB Nacional criou a Comissão de Ações Afirmativas, núcleo dedicado a promover o reconhecimento e o enfrentamento às desigualdades no campo da arquitetura, alinhada às ações do próprio Instituto. O IAB/DF esteve entre os pioneiros e estruturou, ainda em 2019, a sua Comissão de Equidade de Gênero e Raça, atualmente Comissão de Ações Afirmativas, segundo o novo estatuto da entidade. Um legado que inspira mudanças Além de sua atuação no CAU, Ana Laterza é sócia-fundadora do ateliê Ladrilharia, onde une afeto e técnica na produção de ladrilhos hidráulicos, e é mãe de duas filhas, conciliando maternidade com uma carreira que exige constante reinvenção. Como Ouvidora-Geral do CAU (2022-2024), ela implementou práticas reconhecidas nacionalmente, premiadas pela Controladoria-Geral da União (CGU). Hoje, ela coordena a Rede Integrada de Atendimento do CAU e continua a fomentar políticas afirmativas, defendendo que a arquitetura só será democrática quando incluir todas as perspectivas sociais. Na entrevista a seguir, Ana reflete sobre os avanços e desafios dessa jornada, a importância de ampliar o debate para além do gênero — abrangendo raça, diversidade sexual e outras subjetividades — e como a articulação coletiva é essencial para transformar estruturas. Sua história é um convite para repensarmos: que cidades queremos construir e quem tem o direito de desenhá-las? Por que é importante atentar para a condição das mulheres que produzem arquitetura e urbanismo? Porque todas as pessoas devem ser vistas e incluídas; e essas mulheres por muito tempo estiveram às margens da profissão. Porque marcadores sociais e privilégios são inversamente proporcionais (quanto mais marcas, menos espaço) e nossas vivências são diversas e variáveis conforme a nossa localização ao longo dessa régua. Porque os seres humanos, por maior que seja a sua natureza empática, não têm a capacidade de compreender por completo os atravessamentos e subjetividades uns dos outros. Logo, um edifício, uma cidade, um território, uma paisagem, só serão realmente democráticos se a sua concepção considerar efetivamente a pluralidade e as diversas perspectivas de vida que compõem a sociedade. Como a data foi estabelecido o Dia da Mulher Arquiteta e por que foi escolhido o dia 31 de julho? Foi uma longa história coletiva (cheia de articulações, convergências e divergências) nos holofotes e também nos bastidores. A demanda para que o CAU olhasse para as desigualdades na profissão vinha, em grande parte, de fora das estruturas formais. Dentro da instituição, esse olhar ainda era restrito, e mesmo as alianças conquistadas nem sempre significavam adesão real à causa. Daí veio a pandemia e interrompeu um trabalho que vinha se consolidando a duras penas. Até março de 2020, eu assessorava a 1ª Comissão Temporária de Equidade de Gênero, cuja vigência se encerrou em pleno mês das mulheres e em meio a todas as incertezas e perdas trazidas pelo Coronavírus. Uma pesquisa ficou incompleta, e abracei o desafio de tabular as respostas por conta própria, muitas vezes nas poucas horas vagas entre a jornada de trabalho e a de cuidados. Esse "batidão" culminou em um dos dias mais especiais da minha vida: quando apresentei o 1º Diagnóstico de Gênero na Plenária do CAU/BR (Acesse aqui). Consegui transmitir a mensagem (ou melhor: parte dela) e, em um momento de muita comoção, o Conselho decidiu registrar a sua intenção de transformar os dados em resultados, através da demarcação daquela data como o Dia da Arquiteta e Urbanista, pegando carona também no simbolismo e relevância do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho). Não conseguiria ser exaustiva e nem justa na lista de nomes responsáveis direta e indiretamente por essa decisão, por isso a ausência de créditos - o que, a meu ver, fortalece o discurso de despersonificação dos processos decisórios. Mesmo assim, sou muito grata por ter sido parte desse movimento e por todo o apoio e confiança que tive. Como a experiência das mulheres afeta a produção profissional dentro da arquitetura e urbanismo? Acho que não dá mais para falar só de mulheres, por isso a minha pesquisa se redirecionou para as subjetividades 'não normativas'. Gênero, raça, afetividade, deficiência, e um calhamaço de outras categorias precisam ser sobrepostas, interseccionadas, misturadas (como uma pilha de transparências ou um poliedro caleidoscópico de dimensões) se quisermos chegar mais perto da verdade. Em resumo: todo mundo sem autorização de existir e ditar normas para essa existência (exceto quando se fala em eliminar existências alheias) tem experiências que deveriam afetar de forma muito mais efusiva a produção da profissão. As mulheres sim, é claro, mas não me sinto confortável em restringir esse discurso aos nossos próprios dilemas com o cuidado, o corpo, o ambiente doméstico etc., prefiro usá-los para levar outras pautas junto. Talvez seja pretensioso de minha parte esperar que se compreenda essa tentativa extrema de ruptura de estruturas vigentes, mas é o que mais me traz senso de justiça e vontade de seguir tentando desenhar "para leigo entender". Desde que este debate se consolidou dentro do CAU, você considera que houve avanços? Sim e não. Alguns avanços importantes, outros retrocessos relevantes. De um modo geral (e não só no CAU), as estruturas são frágeis e cíclicas; e poucas pessoas conseguem compreender a simultaneidade e complementaridade das urgências. Não sei nem contar quantas vezes ouvi um ‘é muito importante falarmos disso, mas....’. Sempre existe um ‘mas’. Tem um dado que a Cida Bento traz que para mim é muito didático: “Estudo feito pelo IBGE - 1996, traz um quadro bastante interessante. A evolução da escolarização entre os grupos assume trajetória semelhante, mantendo a diferença entre brancos e negros, ou seja, todos se beneficiam com mais escolarização, mas a desigualdade entre negros e brancos permanece inalterada.” (Acesse aqui) Ou seja, valorizar a profissão não vai aproximar as duas curvas, vai apenas fazer com que as duas cresçam, mas uma sempre permanecerá acima. É por isso que existem as chamadas ‘políticas afirmativas’ – para corrigir distorções e nivelar trajetórias em uma única curva de oportunidades. Como a escuta por si só não parece convencer, para leitores céticos que quiserem mais dados, recomendo o 1º Diagnóstico de gênero na AU (Acesse aqui), a minha dissertação de mestrado “O censo do CAU sob um olhar interseccional: retrato da inequidade na arquitetura e urbanismo; (Acesse aqui) e os Cadernos de Políticas Afirmativas do CAU/BR (Acesse aqui). Como o assunto vem reverberando atualmente dentro da estrutura da autarquia? Acho que ele está latente. Há quem leve adiante, há quem sinta, há quem levante a bandeira, mas nunca o suficiente, porque nossa estrutura não é efetivamente representativa. Não tenho muitas respostas e soluções, o que não deveria invalidar a pertinência da crítica. Pessoalmente, confesso que me autoconcedi um momento de pausa, já que só se chega a uma reta final coletiva com revezamento. Saber contribuir é também saber quando recuperar o fôlego. Você considera que este debate tem evoluído para considerar as especificidades das arquitetas negras? Não o bastante, mas cada vez que alguma das vozes negras ou qualquer outra não normativa fura a bolha fico simultaneamente extasiada, reflexiva e ansiosa pelas reações alheias, esperando que haja abertura real dos outros para escutar e acreditar nas dores delas, que jamais sentiremos (veja só...) na pele. Como sempre diz a ex-conselheira e atual Consultora para o Mapa das Periferias do Ministério da Cidades, Camila Leal, a pauta racial vai rasgando fronteiras e gerando um efeito cascata: quando o CAU insere o tema no debate público, mesmo que timidamente pelas faltas de letramento e de pessoas negras em seus espaços, isso impulsiona que profissionais se reconheçam, se movimentem, se aquilombem e se fortaleçam para disputar mais espaços dentro da instituição e fazer com que a pauta continue avançando. Sem esse trabalho articulado e coeso, os esforços se perdem e as conquistas se enfraquecem. Como você acredita que o IAB/DF pode reforçar a luta por valorização profissional das arquitetas e urbanistas? O DF é uma unidade da federação com três títulos claramente dissonantes: o maior número de arquitetos por habitante (CAU x IBGE); as três favelas mais vastas do Brasil (Censo IBGE 2022); e a maior concentração de renda do país (Pnad IBGE 2024). O IAB, enquanto entidade de classe, carrega o peso histórico, a missão social e a liberdade organizacional para se posicionar frente a essas contradições e catalisar profissionais de arquitetura e urbanismo para um projeto de reparação dessas assimetrias e lacunas estruturais.
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