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Inaugurando uma série de reportagens temáticas, a arquiteta e urbanista Raquel Freire contribuiu com o IAB/DF no Especial Elas, dedicado aos conteúdos relacionados ao Dia da Mulher Negra Latino-Americana Caribenha (25 de julho) e o Dia Nacional da Mulher Arquiteta e Urbanista (31 de julho).
Elas ingressam mais cedo no mercado de trabalho, têm jornadas mais longas e as mais altas taxas de desemprego. No Distrito Federal, onde a renda per capita está no topo do ranking brasileiro, a distribuição desequilibrada de renda, trabalho, território e acesso a serviços em desfavor das mulheres negras fica evidente nos resultados da Pesquisa Distrital Por Amostra de Domicílios (PDAD 2021). Com rendimento individual médio 50% menor do que homens não-negros, elas estão na base da pirâmide social. A pesquisa mostra que o DF tem uma população negra superior à não-negra. Mas se 57,4% dos habitantes é preto ou pardo - média superior à nacional (55,8%) - eles habitam o território de maneira segregada: enquanto 32,7% vive no no Lago Sul, 75,45% é morador da SCIA-Estrutural. No acesso ao ensino formal, outro contraste: no DF, 35% da população tem nível superior completo enquanto taxa nacional é de 17,4%, o percentual de homens não-negros com nível superior é o maior (46,41%), enquanto o menor percentual é de mulheres negras (26,93%). Já na faixa “sem instrução”, o maior percentual é de mulheres negras (5,18%) contra cerca de metade para homens não-negros (2,65%). Os dados reafirmam um perfil identificado pela intelectual Lélia Gonzalez há mais de trinta anos: "Ora, na medida em que existe uma divisão racial e sexual do trabalho, não é difícil concluir sobre o processo de tríplice discriminação sofrido pela mulher negra (enquanto raça, classe e sexo), assim como sobre seu lugar na força de trabalho.", escreveu a ativista brasileira, que foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado no Brasil. No dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, o IAB/DF convida a refinar o olhar sobre a arquitetura e urbanismo a partir da condição das mulheres negras, fatia da categoria que recebe até um terço do salário que profissionais de arquitetura deveriam receber, segundo o Censo das Arquitetas e Arquitetos do Brasil, publicado pelo CAU/BR em 2020. Mais do que isso, instiga a pensar sobre a contribuição que elas trazem para o nosso campo de trabalho. "Sem óticas diversas, como a de mulheres negras, perdemos a oportunidade de ter perspectivas únicas e que denunciam as lacunas da vulnerabilidade e do racismo que o espaço urbano acaba evidenciando", afirma, na entrevista abaixo, a arquiteta e urbanista Raquel Freire, que é conselheira superior e coordenadora da Comissão de Equidade de Gênero e Raça do IAB/DF e também vice-presidente de Ações Afirmativas na Direção Nacional (IAB-DN). Formada pela Universidade de Brasília (UnB), Raquel também é artista visual, musicista e pesquisadora e, atualmente, cursa Mestrado em Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Especialização em Geoprocessamento pela PUC Minas. "Se não ampliamos os espaços de debate na arquitetura e urbanismo, podemos cair num empobrecimento e, consequentemente, uma homogeneização do espaço", assegura. Confira a entrevista completa: As mulheres negras ocupam as cidades e os espaços públicos na medida inversa em que decidem sobre eles. O que a arquitetura e o urbanismo vem perdendo com a invisibilidade dessas produtoras das cidades? Quais contribuições arquitetas e urbanistas negras tem a oferecer para o campo da arquitetura e urbanismo? Eu acredito que mulheres negras, onde ingressam, são mobilizadoras de transformação. Na arquitetura, quando a cidade é ocupada por nós mas estamos distantes dos espaços de debate e de decisão, a profissão e os âmbitos em que atuamos perdem esse poder transformador que mulheres negras têm, exatamente por elas serem atuantes diretas no combate às desigualdades no espaço urbano. Sem óticas diversas, como a de mulheres negras, perdemos a oportunidade de ter perspectivas únicas e que denunciam as lacunas da vulnerabilidade e do racismo que o espaço urbano acaba evidenciando. Se não ampliamos os espaços de debate sobre arquitetura e urbanismo, podemos cair num empobrecimento e, consequentemente, uma homogeneização do espaço. Qual a relação entre a arquitetura e urbanismo e a insegurança vivida pelas mulheres, especialmente as mulheres negras, nas cidades? A Pesquisa Distrital Por Amostra de Domicílios (PDAD) mostrou que mulheres negras são maioria no uso dos espaços livres quanto no transporte público. E nesses locais, a gente percebe uma vulnerabilidade múltipla e multifacetada. Há uma sensação de insegurança nos espaços públicos, que se soma à falta de iluminação, de acessibilidade e à ausência de requalificação dos mesmos. Junto disso, nos estudos urbanos, há evidências de uma segregação espacial, onde mulheres negras são comprovadamente maioria como população de baixa renda e periférica, e isso fica em evidência nas distâncias do centro, dos equipamentos públicos, e da qualidade de vida desejada. De que maneira o racismo estrutural se manifesta no planejamento urbano das cidades brasileiras e como a arquitetura e o urbanismo podem responder melhor às demandas das comunidades negras e periféricas? Esse ponto da segregação espacial é um grande destaque. Trabalhando com geoprocessamento, e trazendo os dados étnico-raciais do Censo para a leitura da cidade por meio do mapa, fica evidente, nessa leitura do território, como a segregação espacial revela uma cidade segregada étnico-racialmente, e não apenas socioeconomicamente. Na verdade, é nesse momento que a gente descobre que, onde essas pessoas negras moram em peso, são os lugares majoritariamente periféricos, com déficit na infraestrutura, nos equipamentos públicos urbanos, sendo espaços simbólicos de perpetuação da desigualdade racial. São efeitos simbólicos que chamamos de periferização da população negra, cada vez mais empurrada para áreas distantes. É esse também o efeito causado pela gentrificação, devido à valorização imobiliária e à falta de políticas de habitação social em regiões centrais. Enfim, são muitos os impactos dessa dinâmica do racismo para a arquitetura e urbanismo. No fim, são essas regiões periféricas as mais criminalizadas pela segurança pública, não somente por sua precarização, mas principalmente pela presença da população negra. Atualmente, um jovem negro é morto a cada 16 minutos. Há um par de anos, eram 18 minutos. Então, essa criminalização tem não somente território, mas também cor. E eu acredito que a gente consegue soluções para os territórios periféricos tenham menor desigualdade na sua estrutura e no seu desenho, e com uma diminuição desse déficit de elementos cruciais para uma qualidade de vida. Soluções como o planejamento participativo, onde a gente tem o envolvimento das comunidades periféricas, que são, em peso, formadas por população negra, por exemplo. Contar com mais projetos de revitalização urbana que valorizem a cultura e a identidade dessas comunidades que residem nas áreas periféricas. Existe uma cultura afro-brasileira presente e também outras culturas que constroem a periferia e a fortalecem numa relação coletiva, e isso tem que ser pautado dentro dos projetos de urbanismo e de planejamento urbano. Também como solução crucial, uma ênfase na relevância das políticas de habitação social para que possa haver uma centralidade urbana ocupada por pessoas com maior diversidade étnico-racial e que, de fato, sejam políticas que garantam o acesso à moradia digna para todos. Quais são os principais desafios enfrentados por mulheres negras para ingressar e se manter na profissão? Existem diferenças nas oportunidades de trabalho e reconhecimento entre arquitetas negras e não negras? Como isso se manifesta? Principalmente, e sem sombra de dúvida, a falta de oportunidades. Mulheres negras são duplamente questionadas, pois são estruturantes essenciais para a formação da família, como apontam dados do censo. A maior parte das chefes de família no Brasil, especialmente em habitações em vulnerabilidade habitacional, é composta por mulheres negras. Esse processo dificulta muito o acesso de mulheres negras à arquitetura e urbanismo, porque é uma profissão que exige uma carga horária extensa. E nós mulheres, socialmente impostas nesse lugar de cuidado da família e filho, temos infelizmente uma carga tripla ao lidarmos com uma profissão como essa no dia a dia. São atividades cotidianas exaustivas, e que geram questionamentos sobre nossa capacidade como mulher no mercado de trabalho. Somado a isso, a falta de oportunidades e de políticas afirmativas nesse processo, mesmo com o aumento recente de profissionais negros na arquitetura e urbanismo, conforme constatado em nosso primeiro censo, em 2020, realizado pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo. Além disso, todo o processo como mulher negra na sociedade brasileira, e também na nossa profissão, postos pelas barreiras sociais, econômicas e institucionais, a cara da arquitetura e o urbanismo não era feminina, e muito menos negra. Nossa profissão ainda é vista como essencialmente elitista, estruturada por profissionais brancos e com serviços para somente classes mais altas. Como se arquitetura não fosse alcançável para todas as classes e pessoas. Com o processo de colonização e racialização dos corpos negros no Brasil, nós não somos socialmente consideradas pertencentes a esses espaços. Isso resulta diretamente num racismo institucional, na falta de oportunidades e no não reconhecimento dessas profissionais, que são invisibilizadas ou desvalorizadas por esses fatores. Através do Censo do CAU (2020), sobre diversidade de gênero e raça, a gente começa a perceber que menos de 5% dos arquitetos registrados no Brasil são pessoas negras. E, quando consideramos as mulheres negras, a mesma pesquisa revela que elas recebem até um terço do salário que profissionais de arquitetura deveriam receber. Além disso, mulheres negras à frente de escritórios são menos recorrentes. E como isso impacta também a nossa visão do que é um arquiteto no mercado de trabalho? Qual a imagem desse arquiteto? Qual é o gênero? Qual é a cor desse profissional? Então, nós não somos reconhecidas como profissionais comuns, a serem encontradas de forma comum nesses espaços. E isso evidencia e dificulta a nossa presença nesses lugares. Na sua visão, a ampliação do acesso à universidade (em grande parte por meio das cotas) vem mostrando resultados na produção acadêmica e em projetos arquitetônicos que refletem as perspectivas e necessidades das mulheres negras? Sim, com certeza. Sendo eu fruto das políticas afirmativas estabelecidas nas IES, percebo que as gerações de ingressos na EAUs que sucederam essas políticas, resultaram no questionamento da arquitetura hegemônica, das referências eurocentradas e de um planejamento que não refletia a nossa realidade cotidiana como pessoas negras. É possível perceber nitidamente uma maior diversidade de temas e abordagens, o aumento de projetos inclusivos e que tentam promover uma justiça social, além de mais debates sobre questões raciais e de gênero. Essa presença de mulheres negras na pós graduação é o próximo desafio. Com as políticas afirmativas para pós instaurada desde 2023 em âmbito nacional, a gente sonha com esse aumento da presença de professoras negras, com responsabilização política, a fim de decolonializar o ensino da arquitetura também dentro das salas de aulas, e contribuindo pro aumento de uma diversidade de raça e gênero nos corpos docentes das escolas de arquitetura e urbanismo. Como você avalia o tratamento da pauta racial nas instituições de classe? O que evoluiu e o que ainda precisa avançar? O tratamento da pauta racial nas instituições da nossa classe tem evoluído, mas ainda há muito a ser feito. Algumas instituições como o IAB, entidade centenária da arquitetura, e o recém estabelecido CAU, têm promovido debates e eventos sobre questões raciais e de gênero, e têm criado comissões e grupos de trabalho para tratar do tema. Porém, a pauta racial ainda é marginalizada quando pensamos na mudança efetiva para as políticas profissionais e há baixa representatividade de mulheres negras em cargos de liderança nessa entidade, autarquias e espaço de decisão sobre as políticas da nossa profissão. É preciso avançar em políticas de inclusão e diversidade de forma urgente para que garantam a representatividade de mulheres negras em todos os níveis da instituição. Assim como também elaborar programas de capacitação e mentoria que apoiem o desenvolvimento profissional de mulheres negras. Mas, principalmente, o combate institucional efetivo ao racismo e à discriminação, que criem políticas para ambiente de trabalhos na arquitetura e urbanismo que sejam mais justos e inclusivos. Qual é a importância de espaços afetivos e movimentos de aquilombamento em uma profissão que se referencia em parâmetros coloniais e eurocêntricos? Para mim, os espaços afetivos para pessoas negras na arquitetura são essencialmente espaços de organização para pautar mudanças significativas. Ou seja, para o nosso campo profissional e nossas formas de abordar a coletividade, o afeto é político. Por isso, a importância dos espaços afetivos e movimentos de aquilombamento em uma profissão que ainda se referencia em parâmetros coloniais e eurocentrados é fundamental. Acredito que esses espaços são cruciais para fortalecer nossa identidade, permitindo que nós, mulheres negras, possamos nos conectar com nossas identidades, de ser e de ver o mundo, e principalmente de fortalecer nossa permanência nesses espaços, onde somos poucas. Nesses espaços de coletividade, também temos a oportunidade de trocar experiências, saberes, vivências e conhecimentos, criando assim uma rede de apoio e solidariedade. Além disso, esses espaços são importantes para buscarmos esse poder transformador, para nós, e de combate ao racismo e à discriminação, para o mundo. Consequentemente, a abertura de espaços de afeto e aquilombamento na arquitetura e urbanismo é um ponto de firmamento essencial para transformarmos a profissão em um campo mais justo e inclusivo.
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