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Artigo explica por que retirar as esferas do SDN é defender o patrimônio

 
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No contexto das celebrações do Mês do Patrimônio Cultural, o Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento Distrito Federal (IAB-DF) republica, com autorização, o artigo Quando a cidade tropeça: por que Brasília não precisa de esferas, originalmente veiculado no Correio Brasiliense em 26 de agosto. Escrito por Rogério Carvalho, arquiteto restaurador e diretor curador dos palácios presidenciais do Brasil, o texto aborda, com profundidade técnica e embasamento patrimonial, a recente retirada das esferas do Setor de Diversões Norte, reforçando a importância de preservar a integridade do projeto urbanístico de Brasília e sua legibilidade original. Uma contribuição essencial para refletirmos sobre como intervenções aparentemente simples podem impactar a experiência urbana e o valor de nossa capital como patrimônio mundial.
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Leia abaixo ou acesse a publicação original neste link
Quando a cidade tropeça: por que Brasília não precisa de esferas​
A retirada das esferas do Setor de Diversões Norte representa uma ação fundamentada na preservação da identidade, da escala e dos atributos históricos de Brasília

*ROGÉRIO CARVALHO, diretor curador dos palácios presidenciais do Brasil, arquiteto restaurador e curador de arte

A retirada das esferas de concreto instaladas no Setor de Diversões Norte é uma medida tecnicamente imprescindível e respaldada pelo compromisso com a preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília e do Plano Piloto, tombados como patrimônio cultural brasileiro e reconhecidos pela Unesco. Brasília, concebida por Lucio Costa, é uma cidade planejada com extrema atenção à monumentalidade, à clareza dos percursos e à integração entre escalas — atributos que são diretamente violados pela introdução das esferas, que fragmentam a circulação, impõem obstáculos físicos e interferem na percepção espacial que caracteriza a cidade.

O projeto original do Plano Piloto não é apenas um conjunto de construções isoladas; ele se configura como um organismo urbano integrado, em que cada via, vazio e edificação possui função, escala e significado. O equilíbrio entre áreas monumentais e gregárias, entre eixos residenciais e áreas de lazer, cria uma leitura espacial única, que distingue Brasília de qualquer outra capital. A inserção de esferas de concreto como barreiras físicas rompe essa integração, prejudicando a experiência do pedestre, comprometendo a continuidade visual e desrespeitando a lógica de deslocamento amplo, fluido e previsível que fundamenta a cidade.

Além das questões de legibilidade urbana, há preocupações concretas quanto à funcionalidade e à segurança. As esferas são obstáculos claros para pessoas com mobilidade reduzida, usuários de cadeiras de rodas e deficientes visuais, que podem ter dificuldade em perceber e contornar esses elementos. Também aumentam o risco de acidentes para pedestres em horários noturnos ou sob baixa iluminação e representam desafios de manutenção, sendo suscetíveis a desgaste, vandalismo e necessidade constante de reparos. O impacto funcional, portanto, vai além da estética: trata-se de uma intervenção que afeta diretamente o uso seguro e inclusivo do espaço urbano.

Outro ponto crucial é o contexto cultural e patrimonial. Embora se possa argumentar que a esfera possui valor simbólico ou artístico por sua geometria universal, o simples uso repetitivo de um objeto funcional como barreira física não constitui, por si só, obra de arte. A arte pública em Brasília sempre foi integrada à arquitetura e à concepção modernista do Plano Piloto, como se observa nas obras de artistas que dialogam com a cidade, respeitando a escala, a volumetria e os vazios planejados. A introdução de elementos descontextualizados, ainda que alegadamente lúdicos ou simbólicos, compromete essa integração e transforma espaços públicos em locais com elementos genéricos, deslocados e potencialmente conflituosos com a experiência sensorial e estética do patrimônio.

É importante destacar que o tombamento de Brasília protege não apenas edificações isoladas, mas toda a configuração urbanística, incluindo seus eixos, vazios e alinhamentos. Qualquer intervenção que modifique substancialmente essa configuração — especialmente com barreiras físicas que não dialogam com o projeto original — representa uma ameaça à autenticidade e à integridade do patrimônio cultural brasileiro. A preservação do conjunto urbanístico não se limita a aspectos visuais ou históricos: ela envolve também garantir a acessibilidade, a segurança e a fruição plena de todos os cidadãos, em consonância com os princípios que fundamentaram a cidade.

Além disso, soluções alternativas já comprovadas em contextos urbanos podem cumprir a função de controle de fluxo de pedestres e veículos sem comprometer a monumentalidade e a experiência urbana de Brasília. Balizadores verticais discretos e bem sinalizados, faixas de pavimentação diferenciadas que delimitam áreas de circulação e outras estratégias de ordenamento urbano cumprem a mesma função prática, respeitando a escala, a identidade e a lógica modernista do conjunto. Diferentemente das esferas, essas soluções mantêm a fluidez e a legibilidade do espaço, respeitam a acessibilidade universal e reforçam a experiência sensorial positiva do pedestre.

Portanto, a retirada das esferas do Setor de Diversões Norte não representa uma rejeição à criatividade, à inovação ou à experimentação urbana, mas, sim, uma ação fundamentada na preservação da identidade, da escala e dos atributos históricos de Brasília. Intervenções urbanísticas e artísticas devem sempre estar a serviço da cidade e de seus habitantes, e não em conflito com o projeto original que a torna única. Garantir que cada elemento do espaço público esteja em harmonia com o conjunto urbano é assegurar que Brasília continue sendo um patrimônio cultural brasileiro e mundial, capaz de proporcionar experiências seguras, acessíveis e significativas para a população presente e para as futuras gerações.

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Pela preservação do Edifício da antiga Sede I do Banco do Brasil - projeto do arquiteto Ary Garcia Roza

 
O Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento Distrito Federal (IAB-DF) vem a público manifestar sua profunda preocupação com a descaracterização do edifício da antiga Sede I do Banco do Brasil. Este edifício, de extrema relevância para o conjunto urbanístico de Brasília e para a história da arquitetura moderna, está classificado como uma edificação de interesse de preservação pela legislação que estabelece o PPCUB. Além disso, há dois processos de tombamento relacionados a esta construção.
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O primeiro processo foi protocolado em 2015, no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR). O segundo processo foi solicitado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento do Distrito Federal (IABDF) em conjunto com o CAU/BR, junto à Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, para o tombamento distrital da edificação.

A antiga Sede 1 do Banco do Brasil é uma construção importante e única, representativa do movimento moderno em Brasília. Projetada pelo arquiteto Ary Garcia Roza, o edifício foi inaugurado juntamente com a nova capital. Garcia Roza foi presidente do IAB na época da promoção do Concurso Público Nacional de Projeto para a escolha do Projeto da Nova Capital, e havia anteriormente vencido o concurso para a nova sede do Banco do Brasil no Rio de Janeiro.
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Nos primeiros anos da capital, o presidente Juscelino Kubitschek convidou Oscar Niemeyer para projetar a nova sede do Banco do Brasil, mas Niemeyer recusou o convite, recomendando que Ary Garcia Roza fosse o escolhido, dado seu mérito por ter vendido o concurso para construção da nova sede do banco na antiga capital. A implantação da antiga Sede I no Setor Bancário Sul é diferenciada, sendo o prédio mais alto dessa área. Sua localização em frente a uma grande praça realça a importância da edificação, em conformidade com a proposta de Lucio Costa para Brasília. Apenas dois prédios tiveram esse tratamento na área central: o do Banco do Brasil, na Asa Sul, e a sede dos Correios, na Asa Norte.
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Foto: Maquete física edifício Sede I Banco do Brasil. (Acervo IABDF)
Apesar do tombamento federal e distrital do Conjunto Urbanístico de Brasília, o edifício da antiga Sede I do Banco do Brasil, com processos de tombamento em curso e classificado como de interesse de preservação no PPCUB, corre o risco de sofrer mais intervenções que comprometam sua integridade. Diante disso, o IAB-DF solicita ao Governo do Distrito Federal (GDF), que, em articulação com o Iphan, que corretamente e prontamente embargou as obras, adote medidas para impedir novos danos ao patrimônio cultural de Brasília.
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Nos últimos anos, o IAB-DF tem acionado os órgãos competentes em resposta a denúncias de arquitetos e cidadãos sobre supostas demolições internas no edifício. Também tem questionado o andamento dos processos de acautelamento da edificação. 

A edificação possui acabamentos e soluções sofisticadas e muito inovadoras para a época em que foi construído, com presença de obras de arte integrada, relação generosa e com o espaço urbano e possui painéis de Athos Bulcão e jardins projetados por Burle Marx, tombados pelo GDF, além de mural em bronze de Bruno Giorgi e murais em cerâmica de Burle.
​O IAB-DF, por meio de seus representantes no Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural do Distrito Federal (CONDEPAC) cobrou ações da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF), que resultou em ofício do Secretário solicitando o embargo das obras e estabelecendo diretrizes de preservação. Ainda, em conjunto com as entidades reunidas no Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro, acionou o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios para acompanhar o caso.

Reiteramos que a preservação do conjunto urbanístico de Brasília depende da integridade de suas principais edificações, uma vez que não existe preservação urbanística sem que haja preservação arquitetônica. Por isso, continuaremos nossos esforços para auxiliar e cobrar das autoridades competentes a identificação e a preservação dos edifícios mais representativos da arquitetura moderna brasileira no Distrito Federal, sede da capital do país, reconhecida mundialmente por sua arquitetura.

Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento Distrito Federal (IAB-DF)
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17 de Agosto - Preservação do Patrimônio Cultural - José Leme Galvão Jr.

 
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A preservação é inerente à vida, uma vez nascidos procuramos a longevidade. É similar no trato do patrimônio cultural. Preservar (praeservare, observar previamente), é o preceito mais genérico dos compromissos relativos ao direito à memória. Acolhe todas as ações que visam conservar o patrimônio cultural, ou sejam: identificação, proteção, conservação, restauração, manutenção e revitalização. O conceito mesmo do patrimônio cultural inclui a preservação como pressuposto. E esta se realiza no campo ou no espaço intermédio entre duas razões: A transformação e a conservação.

Preservar é não desperdiçar. Se incorporássemos socialmente como critério que preservar é não desperdiçar, tudo seria menos complicado. Preservação cultural, ou do patrimônio cultural exige uma boa compreensão do que é a cultura humana.
Cultura é o caldo abrangente que envolve as relações humanas no espaço e no tempo. É a história e o futuro reconstruindo-se. É a evolução humana inexorável, vá para onde for, como um cometa que, em sua trajetória, perde e agrega matéria e energia. Nesses termos, significa a própria civilização humana em perspectivas histórica e espacial.

Assim sendo e desde uma visão antropológica, é o patrimônio das gentes, que inclui o das pessoas. É, portanto, composto por todas os tipos que alcançam força simbólica e referencial, materiais e imateriais, sejam naturais ou produzidos total ou parcialmente pela humanidade.

Aí vem as questões mais práticas, operacionais – como preservar? Há dois caminhos importantes: Proteger (tombar) e conservar. Proteger é complexo. Mas conservar é que é danado de difícil. Proteger exige compromissos legais e sociais combinados. Conservar exige comprometimento de apego, tempo, recursos humanos e econômicos, vontade política dos entes públicos, meios de financiamento e gestão de conflitos com a equivalente necessidade de renovar e criar.

É preciso entender que o conhecimento cultural se opõe aos sofrimentos inerentes à vida e nunca foi e jamais será ameaça e causa de sofrimento e destruição – a não ser por licença poética. A preservação cultural inclui também a memória dos sofrimentos (a Guerra de Canudos, por exemplo) justamente para lembrarmos e aprendermos com nossos erros, com maior senso e condição para as sociedades civilizadas. Mesmo em situações nas quais a tecnologia pode aparelhar a destruição (instrumentos de guerra, por exemplo), tais situações são desvios da vocação do conhecimento em amplitude cultural – o bem estar – na verdade um freio às ações destrutivas. O uso impensado, rotulador e corriqueiro de comunista à toda forma de racionalidade inteligente é um desvio de foco para ocultar a realidade simplista dos modos mafiosos e falso-religiosos. Isso nos aproxima perigosamente do caos social, da dissolução do Estado e dos meios de governança republicana. Nesse cenário, instituições como o IPHAN terão grandes dificuldades de cumprir sua missão.

Esperamos uma gestão democrática e plural do IPHAN, proporcional ao dispêndio de energia da sociedade civil em suas manifestações nos últimos anos, em especial entre as entidades com vínculos ativos no tema da preservação cultural. Reconhecemos que o IPHAN é autoritário por definição legal. E quem não é se for para cuidar? Nesse sentido e para que o IPHAN volte a cumprir seu papel essencial – preservar e fazer preservar o Patrimônio Cultural – deve evoluir e favorecer a gestão distribuída nos locais onde se dão os embates, reduzir a tradicional gestão centralista.

De todo modo, aos 85 anos, o IPHAN é reconhecido por sua competência e resiliência, totalmente voltada à preservação da memória cultural brasileira. Se superadas as dificuldades políticas e o processo corrosivo recente, poderemos enfrentar com mais efetividade os problemas naturais das ações de proteção e conservação. Inclusive pelo enfrentamento de vontades opostas, nem sempre na plenitude democrática e republicana.

Reitere-se, os trabalhadores da cultura, fazedores, produtores, servidores públicos e agregados, em sua maioria têm sido resilientes na defesa possível do patrimônio e das estruturas institucionais. A sociedade brasileira e, em particular, sua inteligência, de muitos modos e cores é amplamente empática à preservação da memória cultural, afinal se trata de auto-preservação. Já passamos por muitos momentos críticos, tanto de debilidade de meios como de agressões de gestores e legisladores. Todos temos a percepção de que a memória cultural – ethos – é nossa consistênca e sobrevivência social. Resistiremos!

José Leme Galvão Junior – Conselho Superior do IAB

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Andrey Schlee, Diretor do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do Iphan, destaca a atuação do IAB

 
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(crédito: Andrey Rosenthal Schlee)
Em evento organizado pelo jornal Correio Braziliense, o arquiteto e urbanista Andrey Rosenthal Schlee, diretor do Depam-Iphan e professor titular da Universidade de Brasília, destacou, em sua fala, a importância do IAB na qualificação da arquitetura e urbanismo no Brasil por meio da promoção de concursos públicos nacionais de projeto e da luta do Instituto para que obras públicas sejam realizadas a partir de projetos escolhidos por concursos públicos de projetos.

O IAB organiza concursos de projetos há mais de um século, alcançando resultados excepcionais e obras de referência e qualidade superior. Recentemente, mais uma edificação fruto de concurso público organizado pelo IAB.DF e realizado pela ApexBrasil foi destaque mundial. O Pavilhao do Brasil na Expo Dubai 2022 foi escolhido, por meio de voto popular, como um dos dez prédios mais importantes do ano pela plataforma Archdaily.

Elogiando a presença do IAB.DF no evento, Andrey destacou que "é importante a presença do IAB aqui porque o IAB tem sido um parceiro de todas as cidades brasileiras no sentido de desenvolver Concursos Públicos. E vejam a qualidade que os concursos estão incorporando nas nossas cidades."

Tratando especificamente do Conjunto Urbano de Brasília, o diretor reforçou a ideia de que tombamento não é engessamento e que as gerações atuais podem e devem atuar sobre o patrimônio, qualificando-o. 

"Não podemos impedir que as gerações contemporâneas contribuam com ela. É um contrassenso a gente imaginar que apenas a geração do Lucio Costa, do Oscar Niemeyer foi capaz ou teve condições de projetar algo bom pra esse país. Nós temos que permitir que as gerações contemporâneas, que estão sendo formadas pelas escolas de arquitetura, que estão sendo colocadas em prova pelos concursos do Instituto de Arquitetos do Brasil, só para citar duas instituições presentes, não têm condições de apresentar coisas boas para Brasília. Claro que tem. Então eu acho que cada vez mais a gente tem que lutar para preservar e transformar, no sentido de melhorar, aquilo que está preservado. Não é um congelamento e nunca foi um congelamento o que se pensou para Brasília, e ai mais um vez basta ler os textos do Lucio Costa, do  Italo Campofiorito pelo Iphan, que quando estavam pensando como que se daria o tombamento de Brasília na década de 80, trocando cartas e correspondências, a noção clara de uma cidade que se transforma e que terá que se transformar, sempre pra melhor, é claro.”

​Confira registro completo em: CORREIO DEBATE - ENTRE OS EIXOS DO DF 2ª EDIÇÃO: QUEM AMA PRESERVA | 28.02.2023 - YouTube
​
​Referência: https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2023/02/5076844-diretor-do-iphan-reforca-que-e-necessario-defender-o-patrimonio-de-brasilia.html 
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