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Especial elas: Dia da Mulher Arquiteta - Uma conquista coletiva

 
No dia 31 de julho, celebra-se o Dia da Mulher Arquiteta e Urbanista, uma data que simboliza a resistência, a luta por visibilidade e a busca por equidade em uma profissão como tantas historicamente marcadas por desigualdades de gênero. A criação dessa data não foi um acaso, mas o resultado de anos de mobilização, pesquisas e articulações lideradas por mulheres que desafiaram estruturas institucionais para garantir que as vozes de 64% da categoria, segundo o II Censo das Arquitetas e Arquitetos e Urbanistas do Brasil,  fossem ouvidas. Entre essas vozes está a da arquiteta e urbanista Ana Laterza, cuja trajetória profissional e acadêmica reflete um compromisso incansável com a justiça social e a representatividade na arquitetura.

Formada pela Universidade de Brasília (UnB) e com especialização em Restauro e Valorização pelo Politécnico de Turim (Itália), Ana Laterza é mestre em Teoria e História da Arquitetura e atua há anos na área de patrimônio cultural e projetos públicos. Como servidora concursada do CAU/BR desde 2014, ela transcendeu as atribuições formais do cargo, dedicando-se a pesquisas e ações que evidenciam as desigualdades de gênero e raça na profissão.

Foi no período em que assessorou a 1ª Comissão Temporária de Equidade de Gênero do CAU que ela mergulhou em um trabalho minucioso: tabulou dados, ouviu histórias e, mesmo em meio à pandemia, apresentou o 1º Diagnóstico de Gênero na Arquitetura e Urbanismo, um marco que expôs as disparidades enfrentadas por mulheres na área. Esse estudo foi crucial para que o Conselho oficializasse o 31 de julho como o Dia da Mulher Arquiteta, data que dialoga com o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho), reforçando a interseccionalidade da luta.

A iniciativa inspirou o próprio IAB. Em 2020, o IAB Nacional criou a Comissão de Ações Afirmativas, núcleo dedicado a promover o reconhecimento e o enfrentamento às desigualdades no campo da arquitetura, alinhada às ações do próprio Instituto. O IAB/DF esteve entre os pioneiros e estruturou, ainda em 2019, a sua Comissão de Equidade de Gênero e Raça, atualmente Comissão de Ações Afirmativas, segundo o novo estatuto da entidade.


Um legado que inspira mudanças
Além de sua atuação no CAU, Ana Laterza é sócia-fundadora do ateliê Ladrilharia, onde une afeto e técnica na produção de ladrilhos hidráulicos, e é mãe de duas filhas, conciliando maternidade com uma carreira que exige constante reinvenção.
Como Ouvidora-Geral do CAU (2022-2024), ela implementou práticas reconhecidas nacionalmente, premiadas pela Controladoria-Geral da União (CGU). Hoje, ela coordena a Rede Integrada de Atendimento do CAU e continua a fomentar políticas afirmativas, defendendo que a arquitetura só será democrática quando incluir todas as perspectivas sociais.

Na entrevista a seguir, Ana reflete sobre os avanços e desafios dessa jornada, a importância de ampliar o debate para além do gênero — abrangendo raça, diversidade sexual e outras subjetividades — e como a articulação coletiva é essencial para transformar estruturas. Sua história é um convite para repensarmos: que cidades queremos construir e quem tem o direito de desenhá-las?

Por que é importante atentar para a condição das mulheres que produzem arquitetura e urbanismo? 
Porque todas as pessoas devem ser vistas e incluídas; e essas mulheres por muito tempo estiveram às margens da profissão. Porque marcadores sociais e privilégios são inversamente proporcionais (quanto mais marcas, menos espaço) e nossas vivências são diversas e variáveis conforme a nossa localização ao longo dessa régua. Porque os seres humanos, por maior que seja a sua natureza empática, não têm a capacidade de compreender por completo os atravessamentos e subjetividades uns dos outros. Logo, um edifício, uma cidade, um território, uma paisagem, só serão realmente democráticos se a sua concepção considerar efetivamente a pluralidade e as diversas perspectivas de vida que compõem a sociedade.  

Como a data foi estabelecido o Dia da Mulher Arquiteta e por que foi escolhido o dia 31 de julho? 
Foi uma longa história coletiva (cheia de articulações, convergências e divergências) nos holofotes e também nos bastidores. A demanda para que o CAU olhasse para as desigualdades na profissão vinha, em grande parte, de fora das estruturas formais. Dentro da instituição, esse olhar ainda era restrito, e mesmo as alianças conquistadas nem sempre significavam adesão real à causa. Daí veio a pandemia e interrompeu um trabalho que vinha se consolidando a duras penas. Até março de 2020, eu assessorava a 1ª Comissão Temporária de Equidade de Gênero, cuja vigência se encerrou em pleno mês das mulheres e em meio a todas as incertezas e perdas trazidas pelo Coronavírus. Uma pesquisa ficou incompleta, e abracei o desafio de tabular as respostas por conta própria, muitas vezes nas poucas horas vagas entre a jornada de trabalho e a de cuidados. Esse "batidão" culminou em um dos dias mais especiais da minha vida: quando apresentei o 1º Diagnóstico de Gênero na Plenária do CAU/BR (Acesse aqui).

Consegui transmitir a mensagem (ou melhor: parte dela) e, em um momento de muita comoção, o Conselho decidiu registrar a sua intenção de transformar os dados em resultados, através da demarcação daquela data como o Dia da Arquiteta e Urbanista, pegando carona também no simbolismo e relevância do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho). Não conseguiria ser exaustiva e nem justa na lista de nomes responsáveis direta e indiretamente por essa decisão, por isso a ausência de créditos - o que, a meu ver, fortalece o discurso de despersonificação dos processos decisórios. Mesmo assim, sou muito grata por ter sido parte desse movimento e por todo o apoio e confiança que tive. 


Como a experiência das mulheres afeta a produção profissional dentro da arquitetura e urbanismo? 
Acho que não dá mais para falar só de mulheres, por isso a minha pesquisa se redirecionou para as subjetividades 'não normativas'. Gênero, raça, afetividade, deficiência, e um calhamaço de outras categorias precisam ser sobrepostas, interseccionadas, misturadas (como uma pilha de transparências ou um poliedro caleidoscópico de dimensões) se quisermos chegar mais perto da verdade. Em resumo: todo mundo sem autorização de existir e ditar normas para essa existência (exceto quando se fala em eliminar existências alheias) tem experiências que deveriam afetar de forma muito mais efusiva a produção da profissão. As mulheres sim, é claro, mas não me sinto confortável em restringir esse discurso aos nossos próprios dilemas com o cuidado, o corpo, o ambiente doméstico etc., prefiro usá-los para levar outras pautas junto. Talvez seja pretensioso de minha parte esperar que se compreenda essa tentativa extrema de ruptura de estruturas vigentes, mas é o que mais me traz senso de justiça e vontade de seguir tentando desenhar "para leigo entender". 

Desde que este debate se consolidou dentro do CAU, você considera que houve avanços? 
Sim e não. Alguns avanços importantes, outros retrocessos relevantes. De um modo geral (e não só no CAU), as estruturas são frágeis e cíclicas; e poucas pessoas conseguem compreender a simultaneidade e complementaridade das urgências. Não sei nem contar quantas vezes ouvi um ‘é muito importante falarmos disso, mas....’. Sempre existe um ‘mas’. Tem um dado que a Cida Bento traz que para mim é muito didático: “Estudo feito pelo IBGE - 1996, traz um quadro bastante interessante. A evolução da escolarização entre os grupos assume trajetória semelhante, mantendo a diferença entre brancos e negros, ou seja, todos se beneficiam com mais escolarização, mas a desigualdade entre negros e brancos permanece inalterada.” (Acesse aqui)  

Ou seja, valorizar a profissão não vai aproximar as duas curvas, vai apenas fazer com que as duas cresçam, mas uma sempre permanecerá acima. É por isso que existem as chamadas ‘políticas afirmativas’ – para corrigir distorções e nivelar trajetórias em uma única curva de oportunidades.  
Como a escuta por si só não parece convencer, para leitores céticos que quiserem mais dados, recomendo o 1º Diagnóstico de gênero na AU (Acesse aqui), a minha dissertação de mestrado “O censo do CAU sob um olhar interseccional: retrato da inequidade na arquitetura e urbanismo; (Acesse aqui) e os Cadernos de Políticas Afirmativas do CAU/BR (Acesse aqui).

Como o assunto vem reverberando atualmente dentro da estrutura da autarquia? 
Acho que ele está latente. Há quem leve adiante, há quem sinta, há quem levante a bandeira, mas nunca o suficiente, porque nossa estrutura não é efetivamente representativa. Não tenho muitas respostas e soluções, o que não deveria invalidar a pertinência da crítica. Pessoalmente, confesso que me autoconcedi um momento de pausa, já que só se chega a uma reta final coletiva com revezamento. Saber contribuir é também saber quando recuperar o fôlego. 

Você considera que este debate tem evoluído para considerar as especificidades das arquitetas negras? 
Não o bastante, mas cada vez que alguma das vozes negras ou qualquer outra não normativa fura a bolha fico simultaneamente extasiada, reflexiva e ansiosa pelas reações alheias, esperando que haja abertura real dos outros para escutar e acreditar nas dores delas, que jamais sentiremos (veja só...) na pele. Como sempre diz a ex-conselheira e atual Consultora para o Mapa das Periferias do Ministério da Cidades, Camila Leal, a pauta racial vai rasgando fronteiras e gerando um efeito cascata: quando o CAU insere o tema no debate público, mesmo que timidamente pelas faltas de letramento e de pessoas negras em seus espaços, isso impulsiona que profissionais se reconheçam, se movimentem, se aquilombem e se fortaleçam para disputar mais espaços dentro da instituição e fazer com que a pauta continue avançando. Sem esse trabalho articulado e coeso, os esforços se perdem e as conquistas se enfraquecem. 

Como você acredita que o IAB/DF pode reforçar a luta por valorização profissional das arquitetas e urbanistas? 
O DF é uma unidade da federação com três títulos claramente dissonantes: o maior número de arquitetos por habitante (CAU x IBGE); as três favelas mais vastas do Brasil (Censo IBGE 2022); e a maior concentração de renda do país (Pnad IBGE 2024). O IAB, enquanto entidade de classe, carrega o peso histórico, a missão social e a liberdade organizacional para se posicionar frente a essas contradições e catalisar profissionais de arquitetura e urbanismo para um projeto de reparação dessas assimetrias e lacunas estruturais.​
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Especial Elas: A Arquitetura e Urbanismo ganha com as contribuições das mulheres negras, por Raquel Freire

 
Inaugurando uma série de reportagens temáticas, a arquiteta e urbanista Raquel Freire contribuiu com o IAB/DF no Especial Elas, dedicado aos conteúdos relacionados ao Dia da Mulher Negra Latino-Americana Caribenha (25 de julho) e o Dia Nacional da Mulher Arquiteta e Urbanista (31 de julho). 

Elas ingressam mais cedo no mercado de trabalho, têm jornadas mais longas e as mais altas taxas de desemprego. No Distrito Federal, onde a renda per capita está no topo do ranking brasileiro, a distribuição desequilibrada de renda, trabalho, território e acesso a serviços em desfavor das mulheres negras fica evidente nos resultados da Pesquisa Distrital Por Amostra de Domicílios (PDAD 2021). Com rendimento individual médio 50% menor do que homens não-negros, elas estão na base da pirâmide social. 

A pesquisa mostra que o DF tem uma população negra superior à não-negra. Mas se 57,4% dos habitantes é preto ou pardo - média superior à nacional (55,8%) - eles habitam o território de maneira segregada: enquanto 32,7% vive no no Lago Sul, 75,45% é morador da SCIA-Estrutural. No acesso ao ensino formal, outro contraste: no DF, 35% da população tem nível superior completo enquanto taxa nacional é de 17,4%, o percentual de homens não-negros com nível superior é o maior (46,41%), enquanto o menor percentual é de mulheres negras (26,93%). Já na faixa “sem instrução”, o maior percentual é de mulheres negras (5,18%) contra cerca de metade para homens não-negros (2,65%).

Os dados reafirmam um perfil identificado pela intelectual Lélia Gonzalez há mais de trinta anos: "Ora, na medida em que existe uma divisão racial e sexual do trabalho, não é difícil concluir sobre o processo de tríplice discriminação sofrido pela mulher negra (enquanto raça, classe e sexo), assim como sobre seu lugar na força de trabalho.", escreveu a ativista brasileira, que foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado no Brasil.

No dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, o IAB/DF convida a refinar o olhar sobre a arquitetura e urbanismo a partir da condição das mulheres negras, fatia da categoria que recebe até um terço do salário que profissionais de arquitetura deveriam receber, segundo o Censo das Arquitetas e Arquitetos do Brasil, publicado pelo CAU/BR em 2020. 

Mais do que isso, instiga a pensar sobre a contribuição que elas trazem para o nosso campo de trabalho. "Sem óticas diversas, como a de mulheres negras, perdemos a oportunidade de ter perspectivas únicas e que denunciam as lacunas da vulnerabilidade e do racismo que o espaço urbano acaba evidenciando", afirma, na entrevista abaixo, a arquiteta e urbanista Raquel Freire, que é conselheira superior e coordenadora da Comissão de Equidade de Gênero e Raça do IAB/DF e também vice-presidente de Ações Afirmativas na Direção Nacional (IAB-DN).

Formada pela Universidade de Brasília (UnB), Raquel também é artista visual, musicista e pesquisadora e, atualmente, cursa Mestrado em Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Especialização em Geoprocessamento pela PUC Minas. "Se não ampliamos os espaços de debate na arquitetura e urbanismo, podemos cair num empobrecimento e, consequentemente, uma homogeneização do espaço", assegura.

Confira a entrevista completa:
As mulheres negras ocupam as cidades e os espaços públicos na medida inversa em que decidem sobre eles. O que a arquitetura e o urbanismo vem perdendo com a invisibilidade dessas produtoras das cidades? Quais contribuições arquitetas e urbanistas negras tem a oferecer para o campo da arquitetura e urbanismo?
Eu acredito que mulheres negras, onde ingressam, são mobilizadoras de transformação. Na arquitetura, quando a cidade é ocupada por nós mas estamos distantes dos espaços de debate e de decisão, a profissão e os âmbitos em que atuamos perdem esse poder transformador que mulheres negras têm, exatamente por elas serem atuantes diretas no combate às desigualdades no espaço urbano. Sem óticas diversas, como a de mulheres negras, perdemos a oportunidade de ter perspectivas únicas e que denunciam as lacunas da vulnerabilidade e do racismo que o espaço urbano acaba evidenciando. Se não ampliamos os espaços de debate sobre arquitetura e urbanismo, podemos cair num empobrecimento e, consequentemente, uma homogeneização do espaço.

Qual a relação entre a arquitetura e urbanismo e a insegurança vivida pelas mulheres, especialmente as mulheres negras, nas cidades? 
A Pesquisa Distrital Por Amostra de Domicílios (PDAD) mostrou que mulheres negras são maioria no uso dos espaços livres quanto no transporte público. E nesses locais, a gente percebe uma vulnerabilidade múltipla e multifacetada. Há uma sensação de insegurança nos espaços públicos, que se soma à falta de iluminação, de acessibilidade e à ausência de requalificação dos mesmos. Junto disso, nos estudos urbanos, há evidências de uma segregação espacial, onde mulheres negras são comprovadamente maioria como população de baixa renda e periférica, e isso fica em evidência nas distâncias do centro, dos equipamentos públicos, e da qualidade de vida desejada.

De que maneira o racismo estrutural se manifesta no planejamento urbano das cidades brasileiras e como a arquitetura e o urbanismo podem responder melhor às demandas das comunidades negras e periféricas?
Esse ponto da segregação espacial é um grande destaque. Trabalhando com geoprocessamento, e trazendo os dados étnico-raciais do Censo para a leitura da cidade por meio do mapa, fica evidente, nessa leitura do território, como a segregação espacial revela uma cidade segregada étnico-racialmente, e não apenas socioeconomicamente. Na verdade, é nesse momento que a gente descobre que, onde essas pessoas negras moram em peso, são os lugares majoritariamente periféricos, com déficit na infraestrutura, nos equipamentos públicos urbanos, sendo espaços simbólicos de perpetuação da desigualdade racial. 

São efeitos simbólicos que chamamos de periferização da população negra, cada vez mais empurrada para áreas distantes. É esse também o efeito causado pela gentrificação, devido à valorização imobiliária e à falta de políticas de habitação social em regiões centrais. Enfim, são muitos os impactos dessa dinâmica do racismo para a arquitetura e urbanismo. No fim, são essas regiões periféricas as mais criminalizadas pela segurança pública, não somente por sua precarização, mas principalmente pela presença da população negra. Atualmente, um jovem negro é morto a cada 16 minutos. Há um par de anos, eram 18 minutos. Então, essa criminalização tem não somente território, mas também cor.

E eu acredito que a gente consegue soluções para os territórios periféricos tenham menor desigualdade na sua estrutura e no seu desenho, e com uma diminuição desse déficit  de elementos cruciais para uma qualidade de vida. Soluções como o planejamento participativo, onde a gente tem o envolvimento das comunidades periféricas, que são, em peso, formadas por população negra, por exemplo. Contar com mais projetos de revitalização urbana que valorizem a cultura e a identidade dessas comunidades que residem nas áreas periféricas. Existe uma cultura afro-brasileira presente e também outras culturas que constroem a periferia e a fortalecem numa relação coletiva, e isso tem que ser pautado dentro dos projetos de urbanismo e de planejamento urbano. Também como solução crucial, uma ênfase na relevância das políticas de habitação social para que possa haver uma centralidade urbana ocupada por pessoas com maior diversidade étnico-racial e que, de fato, sejam políticas que garantam o acesso à moradia digna para todos.

Quais são os principais desafios enfrentados por mulheres negras para ingressar e se manter na profissão? Existem diferenças nas oportunidades de trabalho e reconhecimento entre arquitetas negras e não negras? Como isso se manifesta?
Principalmente, e sem sombra de dúvida, a falta de oportunidades. Mulheres negras são duplamente questionadas, pois são estruturantes essenciais para a formação da família, como apontam dados do censo. A maior parte das chefes de família no Brasil, especialmente em habitações em vulnerabilidade habitacional, é composta por mulheres negras. Esse processo dificulta muito o acesso de mulheres negras à arquitetura e urbanismo, porque é uma profissão que exige uma carga horária extensa. E nós mulheres, socialmente impostas nesse lugar de cuidado da família e filho, temos infelizmente uma carga tripla ao lidarmos com uma profissão como essa no dia a dia. São atividades cotidianas exaustivas, e que geram questionamentos sobre nossa capacidade como mulher no mercado de trabalho. Somado a isso, a falta de oportunidades e de políticas afirmativas nesse processo, mesmo com o aumento recente de profissionais negros na arquitetura e urbanismo, conforme constatado em nosso primeiro censo, em 2020, realizado pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo. Além disso, todo o processo como mulher negra na sociedade brasileira, e também na nossa profissão, postos pelas barreiras sociais, econômicas e institucionais, a cara da arquitetura e o urbanismo não era feminina, e muito menos negra. Nossa profissão ainda é vista como essencialmente elitista, estruturada por profissionais brancos e com serviços para somente classes mais altas. Como se arquitetura não fosse alcançável para todas as classes e pessoas. Com o processo de colonização e racialização dos corpos negros no Brasil, nós não somos socialmente consideradas pertencentes a esses espaços. Isso resulta diretamente num racismo institucional, na falta de oportunidades e no não reconhecimento dessas profissionais, que são invisibilizadas ou desvalorizadas por esses fatores.

Através do Censo do CAU (2020), sobre diversidade de gênero e raça, a gente começa a perceber que menos de 5% dos arquitetos registrados no Brasil são pessoas negras. E, quando consideramos as mulheres negras, a mesma pesquisa revela que  elas recebem até um terço do salário que profissionais de arquitetura deveriam receber. Além disso, mulheres negras à frente de escritórios são menos recorrentes. E como isso impacta também a nossa visão do que é um arquiteto no mercado de trabalho? Qual a imagem desse arquiteto? Qual é o gênero? Qual é a cor desse profissional? Então, nós não somos reconhecidas como profissionais comuns, a serem encontradas de forma comum nesses espaços. E isso evidencia e dificulta a nossa presença nesses lugares.

Na sua visão, a ampliação do acesso à universidade (em grande parte por meio das cotas) vem mostrando resultados na produção acadêmica e em projetos arquitetônicos que refletem as perspectivas e necessidades das mulheres negras?
Sim, com certeza. Sendo eu fruto das políticas afirmativas estabelecidas nas IES, percebo que as gerações de ingressos na EAUs que sucederam essas políticas, resultaram no questionamento da arquitetura hegemônica, das referências eurocentradas e de um planejamento que não refletia a nossa realidade cotidiana como pessoas negras. É possível perceber nitidamente uma maior diversidade de temas e abordagens, o aumento de projetos inclusivos e que tentam promover uma justiça social, além de mais debates sobre questões raciais e de gênero. Essa presença de mulheres negras na pós graduação é o próximo desafio. Com as políticas afirmativas para pós instaurada desde 2023 em âmbito nacional, a gente sonha com esse aumento da presença de professoras negras, com responsabilização política, a fim de decolonializar o ensino da arquitetura também dentro das salas de aulas, e contribuindo pro aumento de uma diversidade de raça e gênero nos corpos docentes das escolas de arquitetura e urbanismo.

Como você avalia o tratamento da pauta racial nas instituições de classe? O que evoluiu e o que ainda precisa avançar?
O tratamento da pauta racial nas instituições da nossa classe tem evoluído, mas ainda há muito a ser feito. Algumas instituições como o IAB, entidade centenária da arquitetura, e o recém estabelecido CAU, têm promovido debates e eventos sobre questões raciais e de gênero, e têm criado comissões e grupos de trabalho para tratar do tema. Porém, a pauta racial ainda é marginalizada quando pensamos na mudança efetiva para as políticas profissionais e há baixa representatividade de mulheres negras em cargos de liderança nessa entidade, autarquias e espaço de decisão sobre as políticas da nossa profissão.

É preciso avançar em políticas de inclusão e diversidade de forma urgente para que garantam a representatividade de mulheres negras em todos os níveis da instituição. Assim como também elaborar programas de capacitação e mentoria que apoiem o desenvolvimento profissional de mulheres negras. Mas, principalmente, o combate institucional efetivo ao racismo e à discriminação, que criem políticas para ambiente de trabalhos na arquitetura e urbanismo que sejam mais justos e inclusivos.

Qual é a importância de espaços afetivos e movimentos de aquilombamento em uma profissão que se referencia em parâmetros coloniais e eurocêntricos?
Para mim, os espaços afetivos para pessoas negras na arquitetura são essencialmente espaços de organização para pautar mudanças significativas. Ou seja, para o nosso campo profissional e nossas formas de abordar a coletividade, o afeto é político. Por isso, a importância dos espaços afetivos e movimentos de aquilombamento em uma profissão que ainda se referencia em parâmetros coloniais e eurocentrados é fundamental. Acredito que esses espaços são cruciais para fortalecer nossa identidade, permitindo que nós, mulheres negras, possamos nos conectar com nossas identidades, de ser e de ver o mundo, e principalmente de fortalecer nossa permanência nesses espaços, onde somos poucas. Nesses espaços de coletividade, também temos a oportunidade de trocar experiências, saberes, vivências e conhecimentos, criando assim uma rede de apoio e solidariedade. Além disso, esses espaços são importantes para buscarmos esse poder transformador, para nós, e de combate ao racismo e à discriminação, para o mundo. Consequentemente, a abertura de espaços de afeto e aquilombamento na arquitetura e urbanismo é um ponto de firmamento essencial para transformarmos a profissão em um campo mais justo e inclusivo.

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Dia da Consciência Negra: Leia o Manifesto de Arquitetas e Arquitetos Negros do IAB DF na íntegra!

 
A formação em arquitetura e urbanismo é notoriamente desigual. [...] Esta barreira é uma das que perpetuam um ciclo de exclusão que nos priva de nossa capacidade plena de transformar não apenas a nossa profissão e a forma como é vista, mas também a arquitetura que construímos e as cidades que habitamos.
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​     Hoje, 20 de novembro, celebramos o Dia da Consciência Negra, uma data que nos convida a refletir sobre as lutas históricas da população negra no Brasil e a importância de construir um futuro mais justo e inclusivo.
   Na arquitetura, um campo ainda marcado pelas lutas por equidade na profissão, a representatividade negra precisa ser fortalecida. Por isso, o Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento do Distrito Federal (IAB-DF) lança o Manifesto de Arquitetas e Arquitetos Negros, um documento que traz reflexões sobre os desafios e conquistas de profissionais negros no Distrito Federal e no Brasil.
        Este manifesto é um convite à ação, para que arquitetas e arquitetos negros tenham as redes de apoio fortalecidas, para reivindicar políticas públicas inclusivas e garantir que a diversidade da nossa sociedade esteja refletida em nossa profissão.

Leia o manifesto completo :


Manifesto de Arquitetas e Arquitetos Negros do IAB DF
Por uma arquitetura equitativa, diversa e representativa

Nós, arquitetas e arquitetos negros, reconhecemos o papel central que desempenhamos na construção de cidades e comunidades que refletem a pluralidade da sociedade brasileira. Representando mais da metade da população do Brasil e a maioria no Distrito Federal, é imperativo que nossas vozes, histórias e trajetórias sejam plenamente integradas e valorizadas na prática da arquitetura e do urbanismo.
Segundo o Censo IBGE de 2022, o Brasil é um país de maioria negra. Apesar disso, o espaço que ocupamos em profissões como a arquitetura, ainda é profundamente desproporcional à nossa representatividade demográfica. Essa disparidade reflete desigualdades estruturais históricas que precisamos confrontar e superar.

As políticas de ações afirmativas implantadas a partir de 2003, com a Universidade de Brasília sendo pioneira, trouxeram ganhos inegáveis, permitindo que um maior número de jovens negros ingressasse em cursos de arquitetura e urbanismo. Contudo, mesmo com esse avanço, os números ainda são irrisórios em relação à magnitude da população negra no Brasil.
​
Segundo o II Censo de Gênero e Raça do CAU/BR, realizado em 2020, apenas 4,33% dos arquitetos no Brasil se declararam pretos, e 18% se declaram pardos. Ainda mais alarmante é a situação das mulheres negras, chegando a ganhar quase a metade do que ganham os homens brancos na mesma profissão. Esta é uma realidade inaceitável que reforça a urgência de transformarmos a estrutura da profissão de arquitetura no Brasil.

​A formação em arquitetura e urbanismo é notoriamente desigual. Os altos custos para o acesso à repertórios, materiais e ferramentas de trabalho, combinados com uma remuneração média insuficiente, tornam o acesso e a permanência nos cursos ainda mais difíceis para jovens negros, resultando na evasão de profissionais ainda nos primeiros anos. Esta barreira é uma das que perpetuam um ciclo de exclusão que nos priva de nossa capacidade plena de transformar não apenas a nossa profissão e a forma como é vista, mas também a arquitetura que construímos e as cidades que habitamos.
É evidente a falta de políticas públicas voltadas para garantir a inclusão e a permanência de arquitetas e arquitetos negros no mercado de trabalho. A ausência de programas que promovam a seguridade econômica e profissional dentro de um campo ainda elitizado agrava a marginalização dos nossos profissionais.
Diante desta realidade, chamamos todos as arquitetas e arquitetos negros a se unirem para construir redes de apoio e articulação. Precisamos agir coletivamente para reivindicar políticas inclusivas e fortalecer a representatividade negra no campo da arquitetura e do urbanismo. A criação de organizações, fóruns e eventos que amplifiquem nossas vozes é essencial para transformar este cenário.
É nossa missão reimaginar e reconstruir a arquitetura no Brasil, garantindo que nossas cidades sejam desenhadas para refletir a diversidade de seu povo. O futuro exige que nós sejamos reconhecidos, para além das datas comemorativas, na criação de espaços mais justos e inclusivos. Convocamos governos, instituições de ensino e organizações profissionais a se unirem a este movimento. É hora de transformar a arquitetura e urbanismo em ferramentas para a equidade racial, promovendo uma sociedade onde a equidade e a representatividade deixem de ser exceção e se tornem a regra.
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​“Gênero, Raça e Planejamento de cidades”: decolonizar o ensino para mudar.

 
Fotografia
Cláudia Sales no evento “Arquitetura e feminismo: Sem começo nem fim”.
Texto republicado do Coletivo Arquitetas Invisíveis
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O mês de julho é marcado por 2 datas de grande relevância para a construção e debate sobre equidade, inclusão e visibilidade das mulheres no campo da arquitetura e urbanismo: o dia 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, e o dia 31 de julho, Dia Nacional da Arquiteta e Urbanista. Neste ano, a Coletiva Arquitetas (in)Visíveis, em conjunto com o IAB.DF e a Vice-Presidência Extraordinária de Ações Afirmativas do IAB, colaboraram com o Instituto Cervantes para montar a Exposição Arquitetura e Feminismo: sem começo nem fim, em Brasília. A exposição aborda o cotidiano dos espaços arquitetônicos, centralizando o ponto de vista das pessoas que tradicionalmente têm sido ignoradas e propondo alternativas mais igualitárias.

Como parte da programação paralela à exposição, realizamos no dia 20 de julho uma mesa de debate sobre como habitar os espaços de forma mais sustentável, empática e justa, a partir da perspectiva feminista na arquitetura e urbanismo. O debate foi extremamente rico, contando com a participação de Semiramis González, curadora da exposição, Martha Fonseca Salinas, Collectiu Punt 6, Maribel Aliaga, observatório amar.é.linha, e Claudia Sales, conselheira federal do CAU/BR.

Hoje, dando continuidade às celebrações deste mês e do Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, compartilhamos com todas, todes e todos a fala da arquiteta, urbanista e pedagoga Claudia Sales de Alcântara, que aborda a urgência de decolonizar o ensino para promover mudanças nas nossas cidades e sociedade.

@claudiasalcantara ressalta a necessidade de DEcolonizar o ensino de arquitetura e urbanismo, construindo outras pedagogias e epistemes para além das dominantes, voltadas para os sujeitos subalternizados pela colonialidade, como indígenas, negros, mulheres e outros marcadores de diferença contrapostos às lógicas educativas hegemônicas, que são predominantemente masculinas e brancas. Somente assim poderemos avançar verdadeiramente. “Nossas arquitetas não cabem no ‘modulô”.

Que estas reflexões inspirem a todos nós a construir um futuro mais equânime, generoso e transformador!

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​“Gênero, Raça e Planejamento de cidades”: decolonizar o ensino para mudar.

Cláudia Sales de Alcântara

Todas as pessoas deveriam sentir-se à vontade no espaço urbano, em qualquer lugar e a qualquer hora. O espaço urbano deveria ser democrático e as cidades seguras. O urbanismo deveria beneficiar todos, todas e todes, por intermédio de um espaço público mais inclusivo.

Após décadas de cidades projetadas por e para homens, chegamos à conclusão de que o planejamento urbano não é neutro e que é preciso incluir as mulheres nele. Devemos pensar em propostas que consigam ir além de rever a má iluminação das vias, ou aumentar a vigilância, devemos pensar em como investir em estruturas urbanas inclusivas para criar espaços de convivência para que todos usufruam do direito à cidade.

O CAU BRASIL tem se comprometido com a  pauta da promoção da Equidade de Gênero na Arquitetura e Urbanismo por meio da Comissão Temporária de Equidade de Gênero do CAU/BR (2019), da Comissão Temporária de Política de Equidade de Gênero do CAU/BR (2020) e Comissão Temporária de Raça, Equidade e Diversidade (2021 – 22), incluindo a perspectiva das mulheres no desenvolvimento das cidades brasileiras por meio de uma nova abordagem de participação e a possibilidade de romper esses limites que definem o acesso das mulheres à cidade, tornando-as mais inclusivas e segura para todas as pessoas.

Como instituições reguladoras e fiscalizadoras da profissão que moldam os espaços da moradia e do exercício da cidadania, o CAU/BR e os CAU/UF têm papel fundamental nesse contexto, pois podem esclarecer a sociedade sobre a importância do direito universal à cidade. Assim, buscam seu protagonismo como referência em planejamento e gestão democrática e inclusiva, especialmente porque mais da metade da categoria de arquitetos e urbanistas é composta por mulheres.

Atender as demandas das mulheres no planejamento urbano não implica fazer uma cidade especializada unicamente para elas, excluindo o lugar e as necessidades dos outros cidadãos, mas afirmar uma perspectiva que representa uma nova abordagem de inclusão, do olhar, da opinião, da percepção e da contribuição das mulheres na construção da cidade contemporânea, trazendo uma nova dimensão ao desenvolvimento da cidade e da sociedade. Pensar as cidades a partir das necessidades de uso das mulheres é refletir sobre a infraestrutura do espaço urbano para responder às atividades do cotidiano também delas.

Porém, quero trazer aqui mais uma camada interseccional para ser trabalhada com a questão de gênero, que é a questão racial. Isso porque ainda hoje no Brasil, as mulheres negras são quem protagonizam os piores indicadores sociais. As vivências de mulheres pretas são distintas das de mulheres brancas.

Para nós, mulheres pretas, as experiências individuais e coletivas que nos movem são derivadas do enfrentamento diário pela sobrevivência em um ambiente estruturalmente racista, fruto de uma herança escravocrata que ainda não foi encarada como se deveria. A socióloga Ednéia Gonçalves elucida essa questão quando diz que:
  • “refletir sobre as implicações do racismo no processo de apropriação e circulação da população negra nas cidades é também um exercício de identificação desse território como mais um espaço de luta contra o apagamento de nossa presença histórica, econômica, social, cultural e religiosa que atinge as mulheres negras, interseccionando violências, discriminações e opressões.
    Trabalhar, estudar, maternar, amar, morar, alugar, permanecer viva… O direito à livre circulação ainda é uma abstração, tendo em vista que as experiências individuais e coletivas que incidem na construção de vínculos com esse território se baseiam, sobretudo, na hostilidade ao nosso corpo e à história que ele representa.
    (…). Essa visão “casa grande e senzala”, que até hoje inspira políticas públicas e alimenta o imaginário racista e separatista, contribui fortemente para a permanência do quarto de empregada, uniformes alvos e elevadores de serviço, que escandalosa ou disfarçadamente resistem na cidade, fortalecendo e reinventando as armadilhas discriminatórias de sempre.”

Diante do exposto, quero concentrar minha fala colocando a necessidade de se  trabalhar a questão de cidade gênero, numa perspectiva de justiça racial que nos permita a oportunidade de desconstruir estruturas que contribua para uma série de violações de direitos e nos permita obter uma compreensão mais profunda de como as estruturas racistas e patriarcais que se sobrepõem e que precisam ser debatidas e solucionadas.

Entendo que essa questão envolve fundamentalmente a nossa formação para o exercício profissional. Se não fizermos uma revisão nos nossos currículos, um giro decolonial na nossa formação, não sairemos do canto, não conseguiremos construir as respostas que de fato são necessárias para esse contexto.

A autora Thais Luzia Colaço utiliza o termo “decolonial”, suprimindo o “s” para marcar uma distinção com o significado de descolonizar em seu sentido clássico. Deste modo quer salientar que a intenção não é desfazer o colonial ou revertê-lo, ou seja, superar o momento colonial pelo momento pós-colonial. A intenção é provocar um posicionamento contínuo de transgredir e insurgir. O decolonial implica, portanto, uma luta contínua”. Indica uma superação do colonialismo — o qual é a base do patriarcado e o racismo; por seu turno, a ideia de decolonialidade indica exatamente o oposto e visa transcender a colonialidade.

Precisamos DEcolonizar o ensino de arquitetura e urbanismo, construindo outras pedagogias e epistemes para além da hegemônica, a partir dos sujeitos subalternizados pela colonialidade, como indígenas, negros, mulheres e outros marcadores das diferenças contrapostas às lógicas educativas hegemônicas, que são masculinas e brancas. Só assim conseguiremos avançar.

Os teóricos que estudamos são em sua maioria, ainda hoje, eurocêntricos e estadunidenses, não nos aprofundamos na produção de conhecimento latino-americana, voltada para América Latina, e por esse motivo, acabamos reproduzindo um conhecimento filosófico, metafísico, eclesiástico, arquitetônico, formado nesses países de centro, que não possui conexão com nossa realidade social e cultural.

O que a gente faz é tentar de alguma maneira aplicar esses conhecimentos a nossa realidade, o que não funciona, fazendo com que as coisas feitas aqui pareçam ser muito distantes daquele ideal hegemônico. Logo, a nossa produção passa a ser vista como algo menor, como uma coisa que não conseguiu chegar lá, capenga e “tupiniquim”.

Os cursos de Arquitetura e do Urbanismo no Brasil, tentando se inserir na linha histórica dos países europeus, valorizaram desde o seu nascedouro a seleção e organização do conhecimento produzidos nesses países de centro, como fundamento para a formação dos profissionais brasileiros. Esses conhecimentos foram distribuídos em, pelo menos, quatro principais eixos — teoria, história, projeto (arquitetura, urbanismo e patrimônio) e tecnologia — que se estruturam quase que de forma autônoma e independente, com pouca articulação e transversalidade e interdisciplinaridade. E isso por si só já é um prejuízo! Porque se tem um processo formativo fragmentado, na lógica do processo industrial (fabril), capitalista e colonial, onde se acredita que na junção das partes, forma-se o todo. E a gente já sabe, que, na prática, não funciona desta forma…

Adotando o paradigma Moderno de fazer ciência — modelo esse eurocêntrico, dos países históricos (Flüsser) — impomos nas nossas escolas um pensamento cartesiano e positivista de enxergar a cidade e o edifício, simplificando problemas complexos, construindo de forma instrumental, linear e sucessiva o conhecimento.

Então, a temática DA DECOLONIZAÇÃO DO ENSINO DE ARQUITETURA é uma temática que me obriga a falar desse projeto de modernidade, que continua presente nos cursos, numa lógica opressora para mulheres, pretos, povos originários, PCDs, etc. E me convida a pensar e construir paradigmas que rompam com essa produção de conhecimento de episteme eurocêntrica.

E isso é muito difícil, porque ninguém quer fazer uma imersão em si: dá trabalho, mexe com problemas e feridas que não queremos lembrar e revisitar, nos obriga a rever e criticar o que já foi hegemonicamente colocado para nós, como se não nos houvesse outra opção, de forma “naturalizada”, numa espécie de violência simbólica onde nós, não percebendo essa violência que nos foi e é imputada, acabamos criando mecanismos de manutenção e reprodução dessa violência (Bourdieu). É o que Cida Bento chama de pacto da branquitude.
Na arquitetura, mais especificamente, esse pensamento estruturado no modo cartesiano e positivista de enxergar a realidade, chega no seu expoente máximo no MODERNISMO, estabelecendo uma maneira de enxergar e projetar o objeto arquitetônico e a cidade. E nós, adotamos, sem sermos modernos, e sem passarmos pela revolução industrial, pelos mesmos problemas de ordem econômica-social que desembocou no modernismo europeu, esse paradigma como estruturante epistemológica das nossas escolas, e consequentemente em nossas cidades, desconsiderando nosso próprio processo histórico, marcado por diversas violências de gênero e raça.

Por que estou dizendo tudo isso? Porque se quisermos habitar os espaços de forma mais sustentável, igualitária e justa, o nosso tema deve ser primeiro a DECOLONIZAÇÃO do campo da arquitetura e urbanismo. Porque a supervalorização do moderno, ainda tão presente nas escolas de arquitetura e urbanismo, gera pelo menos três problemas centrais, impeditivos para se construir espaços mais empáticos, uma profissão mais inclusiva e uma sociedade mais equânime a partir da arquitetura e urbanismo, são eles: o discurso, o projeto e o conteúdo das nossas escolas.

O primeiro é o discurso, a falsa ideia que a verdadeira arquitetura brasileira foi aquela produzida durante o movimento moderno, numa tentativa “purista” e higienista, de se inserir na história da arquitetura “mundial”. Qual é o prejuízo desse tipo de supervalorização?: é que, se o modernismo brasileiro é a nossa arquitetura que “deu certo”, que nos projetou internacionalmente (aquela — falsa — sensação de que nos inserimos na linha histórica dos países de centro), então todos os estudantes querem copiar esse paradigma! Porque é mais seguro “colar” em algo que deu certo.

E como prejuízo da supervalorização desse discurso, temos projetos que muitas vezes só contribuem para a manutenção e reprodução de uma arquitetura cartesiana e objetiva, distante da área criativa da complexidade da sociedade, que não cabe num “modulô”.

O segundo problema está na maneira de fazer projeto que esse paradigma imprimiu e reproduzimos em muitas das nossas escolas. Já sabemos disso, mas falarei novamente, para os modernistas a forma do objeto arquitetônico deveria seguir a função. Portanto, a forma surge da articulação de atividades resolvidas em planta-baixa (elemento gerador do projeto). Frases clássicas como a de Le Corbusier — A Casa é uma Máquina de Morar — e a de Mies Van der Rohe — Menos é Mais — exaltavam os quesitos funcionais do projeto e ganharam o mundo, principalmente depois da segunda grande guerra.

Iniciamos, geralmente, pela planta-baixa, depois eleva-se os cortes e fachadas. Essa forma de projetar faz com que o estudante não consiga ter uma visão geral (total), mais complexa do objeto, pois, sempre trabalha por partes, de forma fragmentada. Isso gera problemas não só de representação e de projeto, mas, problemas na maneira de ler a realidade, de ler o projeto, de ler o edifício, ler a cidade. Falta de conexão com as demais disciplinas, principalmente as de história. 

Esse modo de fazer projeto, fruto dessa racionalidade técnica eurocêntrica, centrada no olho, nada tem a ver com nossa cultura latino-americana, repleta de gestos, sentidos, excessos e mestiçagens. Para nós deveria ser “Mais é mais e menos é um tédio” (Iris Barrel), como sonhava Ariano Suassuna em seu manifesto Armorial:
  • A arquitetura brasileira contemporânea, nem é arquitetura — pois é feia, fria e desagradável — nem é brasileira — pois é copiada de Le Corbusier, internacionalista, cosmopolita, requentada, brancosa, cartesiana, de paredes nuas, brancas, retas, e tendo, ainda por cima, desterrado de dentro de si a Pintura, a Cerâmica e a Escultura. Certa vez, Le Corbusier indignou um grupo de jovens arquitetos brasileiros que o visitavam, dizendo que toda a Arquitetura brasileira moderna originava-se da dele.
    Le Corbusier tinha razão, e ainda foi delicado, porque não acrescentou que ele próprio faz, às vezes, por acaso, coisas boas, e nossos arquitetos só têm feito é copiar o que ele tem de pior, de mais  brancoso, cartesiano e calvinista, repetindo fórmulas e o feio jargão de “gabaritos” “soluções”, e outras coisas “funcionais”. Tudo isso não tem nada de brasileiro.
    Nossa arquitetura teria de ser imaginosa, meio demente, colorida, violenta, irregular, ardente e forte em certos casos, e, noutros casos, tranquila e acolhedora; (…)
    Os atuais “caixões” de paredes despidas e duras, semelhantes a postos de gasolina, não nos servem, não correspondem ao Brasil. (…)

O terceiro problema é que esse paradigma faz uma demarcação daquilo que deve ser estudado com uma certa importância e aquilo que deve ser deixado de lado, ele seleciona os conteúdos, ele fragmenta e diz aquilo que é importante e aquilo que é secundário, aquilo que é arte e aquilo que não é, aquilo que é arquitetura e aquilo que não deve ser. Supervaloriza os conhecimentos dos países históricos, e despreza e invisibiliza os saberes populares e conhecimentos dos demais contextos e culturas (demarcação de poder).

E isso gera GRANDE PROBLEMA: o fato de eu eleger uma arquitetura como hegemônica, faz com que eu perceba com que toda a outra produção, ela seja colocada como uma categoria a parte, menor ou invisibilizada.

É uma arquitetura e um urbanismo menor, que não precisa ser visto, não precisa ser visitado, não precisa ser analisada e protegida. Nós não estudamos a América Latina e sim a Europa. Não conhecemos as contribuições incas, maias, tupis, mas estudamos a Grécia Antiga e sabemos distinguir uma coluna dórica, jônica e coríntios! Vocês já se perguntaram a quem isso interessa?

Nos aprofundamos nas obras dos “grandes” arquitetos do modernismo mundial e brasileiro, mas quando olhamos a cidade, o que a gente tem, não é exatamente esse exemplar. O que está sendo produzido são outras coisas: mestiças, ecléticas, femininas e barrocas. Fruto de uma série de fatores, que nós não estudamos nas escolas de arquitetura, e aí a gente se frustra! 

As escolas de arquitetura invisibilizam essa produção mestiça, marcada pela presença de negros, pardos, indígenas e mulheres, a produção feita a partir da diversidade de culturas e dos problemas do dia a dia; para supervalorizar uma produção que se assemelhe com a produção hegemônica dita “pura” e intelectualizada, o que supostamente nos levaria a um “reconhecimento e validação” dos países de centro.

Habitar os espaços de forma mais sustentável, igualitária e justa, só será possível quando conseguirmos mudar nosso modo de estruturar os cursos de arquitetura e urbanismo, quando tivermos realmente dispostos a decolonizar e assumir nossa condição latino-americana. Eu ainda não sei como fazer isso, mas sei que um primeiro passo é trazer o tema para discutirmos nas universidades, entidades e conselho profissional, acreditando que outros caminhos também são possíveis. Como dizia Paulo Freire: “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. “Mudar é difícil, mas é possível”.
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25 de julho - Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha

 
Fotografia
Dia 25 de Julho. Viver o Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha é relembrar a grande questão social brasileira a ser enfrentada. 

São elas as principais impactadas pelas políticas de austeridade, pela ausência de políticas públicas e pelos descompassos da precarização urbana no país. O enfrentamento diário ao machismo e racismo torna o espaço urbano ainda mais desafiador, e nos faz questionar: em que momento nossas cidades se atentarão às políticas de enfrentamento, tanto para a violência racial quanto de gênero?

Essa violência contra a mulher racializada no Brasil, assim como nos países advindos de processos históricos de colonização, corroboram para uma visão hiperssexualizada, de silenciamento das suas histórias e de subalternização deste corpo feminino em evidência (GONZALEZ, 1992).

No Brasil, elas são maioria, representando quase 23,4% da população brasileira. No DF, também se apresentam como maior parcela da população, chegando a quase 28,7% dos habitantes. (PDAD, 2021), Em Brasília (IPE DF, 2021), mulheres negras são maioria nos deslocamentos, representando 35,5% do andar a pé no DF. E que cidade se apresenta durante esses percursos? Como estão os espaços públicos, a infraestrutura e uma perspectiva de morar dignamente nos núcleos urbanos, periféricos e centrais?
Veja também a coluna do IAB no Jornal Brasil de Fato DF: Brasília, por que ignora sua segregação escancarada?

Pensando na mulher negra como maior parte do contingente feminino racializado no espaço, o Brasil tem um contraste agravante entre as condições sociais de mulheres negras e mulheres brancas no país. Em 2023, a violência contra mulheres chegou a números alarmantes, onde a cada 11 vítimas de feminicídio, 7 são negras, segundo os dados da Anistia Internacional (2023). Quando observamos as condições socioeconômicas, as reflexões de desigualdade e da feminização da pobreza também nos mostram um longo caminho a se enfrentar: mulheres negras têm uma menor participação em trabalhos com carteira assinada e os menores índices de ocupação em cargos de chefia (IBGE, 2022). Segundo os dados do 1° diagnóstico de Gênero elaborado em 2019 pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU/BR), as mulheres negras arquitetas representam a maior taxa de desemprego na carreira (44%), o que não provoca espanto ao analisarmos os dados sociais de nossa população.

Inclusive, a invisibilidade de mulheres indígenas nas estatísticas também demonstra a incipiência de dados sobre as suas formas de vida, e se reflete também como um dado, pensando a ausência de informações das suas atuações, tanto no nosso campo de trabalho quanto como precursoras da vida, dentro e fora de nossas cidades. Uma cidade universal, feita para todas, todes e todos, não deveria significar a sua homogeneização. Nos aspectos do planejamento urbano, a condição feminina, afrolatinoamericana, índigena e caribenha, ainda é conhecida comumente nas condições da precarização. Porém, suas vivências, histórias e existências perpassam essas condições e são a chave da libertação de uma representação redutível, que não condicione-as à mera imagem de violência, subserviência ou pobreza.

Além da representação desses dados, uma descentralização do planejamento urbano deve ser o foco para os próximos anos, condizente às demandas na arquitetura e na cidade. É crucial o comprometimento de se realizar novas abordagens da teoria e prática, onde o campo da arquitetura e do urbanismo enfrente os antecedentes colonizadores (ainda presentes) e aborde a visão das mulheres racializadas, negras, indígenas e afrodiaspóricas como dimensões analíticas, referências no espaço.

Texto: Raquel Freire 
Revisão: Luiza Dias Coelho
Peças de comunicação: Cecília Almeida

Comissão Extraordinária de equidade de gênero e raça 
​Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento do Distrito Federal


Referências:
GONZALEZ, Lélia. Por uma categoria político-cultural de Amefricanidade. 1992. Rio de Janeiro.
Instituto de Pesquisa Econômica Distrito Federal (IPE DF). Retratos Sociais 2021 de Pessoas Negras. Brasília: 2021.
Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílio (PDAD). Brasília: CODEPLAN, 2021.
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