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No dia 31 de julho, celebra-se o Dia da Mulher Arquiteta e Urbanista, uma data que simboliza a resistência, a luta por visibilidade e a busca por equidade em uma profissão como tantas historicamente marcadas por desigualdades de gênero. A criação dessa data não foi um acaso, mas o resultado de anos de mobilização, pesquisas e articulações lideradas por mulheres que desafiaram estruturas institucionais para garantir que as vozes de 64% da categoria, segundo o II Censo das Arquitetas e Arquitetos e Urbanistas do Brasil, fossem ouvidas. Entre essas vozes está a da arquiteta e urbanista Ana Laterza, cuja trajetória profissional e acadêmica reflete um compromisso incansável com a justiça social e a representatividade na arquitetura.
Formada pela Universidade de Brasília (UnB) e com especialização em Restauro e Valorização pelo Politécnico de Turim (Itália), Ana Laterza é mestre em Teoria e História da Arquitetura e atua há anos na área de patrimônio cultural e projetos públicos. Como servidora concursada do CAU/BR desde 2014, ela transcendeu as atribuições formais do cargo, dedicando-se a pesquisas e ações que evidenciam as desigualdades de gênero e raça na profissão. Foi no período em que assessorou a 1ª Comissão Temporária de Equidade de Gênero do CAU que ela mergulhou em um trabalho minucioso: tabulou dados, ouviu histórias e, mesmo em meio à pandemia, apresentou o 1º Diagnóstico de Gênero na Arquitetura e Urbanismo, um marco que expôs as disparidades enfrentadas por mulheres na área. Esse estudo foi crucial para que o Conselho oficializasse o 31 de julho como o Dia da Mulher Arquiteta, data que dialoga com o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho), reforçando a interseccionalidade da luta. A iniciativa inspirou o próprio IAB. Em 2020, o IAB Nacional criou a Comissão de Ações Afirmativas, núcleo dedicado a promover o reconhecimento e o enfrentamento às desigualdades no campo da arquitetura, alinhada às ações do próprio Instituto. O IAB/DF esteve entre os pioneiros e estruturou, ainda em 2019, a sua Comissão de Equidade de Gênero e Raça, atualmente Comissão de Ações Afirmativas, segundo o novo estatuto da entidade. Um legado que inspira mudanças Além de sua atuação no CAU, Ana Laterza é sócia-fundadora do ateliê Ladrilharia, onde une afeto e técnica na produção de ladrilhos hidráulicos, e é mãe de duas filhas, conciliando maternidade com uma carreira que exige constante reinvenção. Como Ouvidora-Geral do CAU (2022-2024), ela implementou práticas reconhecidas nacionalmente, premiadas pela Controladoria-Geral da União (CGU). Hoje, ela coordena a Rede Integrada de Atendimento do CAU e continua a fomentar políticas afirmativas, defendendo que a arquitetura só será democrática quando incluir todas as perspectivas sociais. Na entrevista a seguir, Ana reflete sobre os avanços e desafios dessa jornada, a importância de ampliar o debate para além do gênero — abrangendo raça, diversidade sexual e outras subjetividades — e como a articulação coletiva é essencial para transformar estruturas. Sua história é um convite para repensarmos: que cidades queremos construir e quem tem o direito de desenhá-las? Por que é importante atentar para a condição das mulheres que produzem arquitetura e urbanismo? Porque todas as pessoas devem ser vistas e incluídas; e essas mulheres por muito tempo estiveram às margens da profissão. Porque marcadores sociais e privilégios são inversamente proporcionais (quanto mais marcas, menos espaço) e nossas vivências são diversas e variáveis conforme a nossa localização ao longo dessa régua. Porque os seres humanos, por maior que seja a sua natureza empática, não têm a capacidade de compreender por completo os atravessamentos e subjetividades uns dos outros. Logo, um edifício, uma cidade, um território, uma paisagem, só serão realmente democráticos se a sua concepção considerar efetivamente a pluralidade e as diversas perspectivas de vida que compõem a sociedade. Como a data foi estabelecido o Dia da Mulher Arquiteta e por que foi escolhido o dia 31 de julho? Foi uma longa história coletiva (cheia de articulações, convergências e divergências) nos holofotes e também nos bastidores. A demanda para que o CAU olhasse para as desigualdades na profissão vinha, em grande parte, de fora das estruturas formais. Dentro da instituição, esse olhar ainda era restrito, e mesmo as alianças conquistadas nem sempre significavam adesão real à causa. Daí veio a pandemia e interrompeu um trabalho que vinha se consolidando a duras penas. Até março de 2020, eu assessorava a 1ª Comissão Temporária de Equidade de Gênero, cuja vigência se encerrou em pleno mês das mulheres e em meio a todas as incertezas e perdas trazidas pelo Coronavírus. Uma pesquisa ficou incompleta, e abracei o desafio de tabular as respostas por conta própria, muitas vezes nas poucas horas vagas entre a jornada de trabalho e a de cuidados. Esse "batidão" culminou em um dos dias mais especiais da minha vida: quando apresentei o 1º Diagnóstico de Gênero na Plenária do CAU/BR (Acesse aqui). Consegui transmitir a mensagem (ou melhor: parte dela) e, em um momento de muita comoção, o Conselho decidiu registrar a sua intenção de transformar os dados em resultados, através da demarcação daquela data como o Dia da Arquiteta e Urbanista, pegando carona também no simbolismo e relevância do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha (25 de julho). Não conseguiria ser exaustiva e nem justa na lista de nomes responsáveis direta e indiretamente por essa decisão, por isso a ausência de créditos - o que, a meu ver, fortalece o discurso de despersonificação dos processos decisórios. Mesmo assim, sou muito grata por ter sido parte desse movimento e por todo o apoio e confiança que tive. Como a experiência das mulheres afeta a produção profissional dentro da arquitetura e urbanismo? Acho que não dá mais para falar só de mulheres, por isso a minha pesquisa se redirecionou para as subjetividades 'não normativas'. Gênero, raça, afetividade, deficiência, e um calhamaço de outras categorias precisam ser sobrepostas, interseccionadas, misturadas (como uma pilha de transparências ou um poliedro caleidoscópico de dimensões) se quisermos chegar mais perto da verdade. Em resumo: todo mundo sem autorização de existir e ditar normas para essa existência (exceto quando se fala em eliminar existências alheias) tem experiências que deveriam afetar de forma muito mais efusiva a produção da profissão. As mulheres sim, é claro, mas não me sinto confortável em restringir esse discurso aos nossos próprios dilemas com o cuidado, o corpo, o ambiente doméstico etc., prefiro usá-los para levar outras pautas junto. Talvez seja pretensioso de minha parte esperar que se compreenda essa tentativa extrema de ruptura de estruturas vigentes, mas é o que mais me traz senso de justiça e vontade de seguir tentando desenhar "para leigo entender". Desde que este debate se consolidou dentro do CAU, você considera que houve avanços? Sim e não. Alguns avanços importantes, outros retrocessos relevantes. De um modo geral (e não só no CAU), as estruturas são frágeis e cíclicas; e poucas pessoas conseguem compreender a simultaneidade e complementaridade das urgências. Não sei nem contar quantas vezes ouvi um ‘é muito importante falarmos disso, mas....’. Sempre existe um ‘mas’. Tem um dado que a Cida Bento traz que para mim é muito didático: “Estudo feito pelo IBGE - 1996, traz um quadro bastante interessante. A evolução da escolarização entre os grupos assume trajetória semelhante, mantendo a diferença entre brancos e negros, ou seja, todos se beneficiam com mais escolarização, mas a desigualdade entre negros e brancos permanece inalterada.” (Acesse aqui) Ou seja, valorizar a profissão não vai aproximar as duas curvas, vai apenas fazer com que as duas cresçam, mas uma sempre permanecerá acima. É por isso que existem as chamadas ‘políticas afirmativas’ – para corrigir distorções e nivelar trajetórias em uma única curva de oportunidades. Como a escuta por si só não parece convencer, para leitores céticos que quiserem mais dados, recomendo o 1º Diagnóstico de gênero na AU (Acesse aqui), a minha dissertação de mestrado “O censo do CAU sob um olhar interseccional: retrato da inequidade na arquitetura e urbanismo; (Acesse aqui) e os Cadernos de Políticas Afirmativas do CAU/BR (Acesse aqui). Como o assunto vem reverberando atualmente dentro da estrutura da autarquia? Acho que ele está latente. Há quem leve adiante, há quem sinta, há quem levante a bandeira, mas nunca o suficiente, porque nossa estrutura não é efetivamente representativa. Não tenho muitas respostas e soluções, o que não deveria invalidar a pertinência da crítica. Pessoalmente, confesso que me autoconcedi um momento de pausa, já que só se chega a uma reta final coletiva com revezamento. Saber contribuir é também saber quando recuperar o fôlego. Você considera que este debate tem evoluído para considerar as especificidades das arquitetas negras? Não o bastante, mas cada vez que alguma das vozes negras ou qualquer outra não normativa fura a bolha fico simultaneamente extasiada, reflexiva e ansiosa pelas reações alheias, esperando que haja abertura real dos outros para escutar e acreditar nas dores delas, que jamais sentiremos (veja só...) na pele. Como sempre diz a ex-conselheira e atual Consultora para o Mapa das Periferias do Ministério da Cidades, Camila Leal, a pauta racial vai rasgando fronteiras e gerando um efeito cascata: quando o CAU insere o tema no debate público, mesmo que timidamente pelas faltas de letramento e de pessoas negras em seus espaços, isso impulsiona que profissionais se reconheçam, se movimentem, se aquilombem e se fortaleçam para disputar mais espaços dentro da instituição e fazer com que a pauta continue avançando. Sem esse trabalho articulado e coeso, os esforços se perdem e as conquistas se enfraquecem. Como você acredita que o IAB/DF pode reforçar a luta por valorização profissional das arquitetas e urbanistas? O DF é uma unidade da federação com três títulos claramente dissonantes: o maior número de arquitetos por habitante (CAU x IBGE); as três favelas mais vastas do Brasil (Censo IBGE 2022); e a maior concentração de renda do país (Pnad IBGE 2024). O IAB, enquanto entidade de classe, carrega o peso histórico, a missão social e a liberdade organizacional para se posicionar frente a essas contradições e catalisar profissionais de arquitetura e urbanismo para um projeto de reparação dessas assimetrias e lacunas estruturais.
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Inaugurando uma série de reportagens temáticas, a arquiteta e urbanista Raquel Freire contribuiu com o IAB/DF no Especial Elas, dedicado aos conteúdos relacionados ao Dia da Mulher Negra Latino-Americana Caribenha (25 de julho) e o Dia Nacional da Mulher Arquiteta e Urbanista (31 de julho).
Elas ingressam mais cedo no mercado de trabalho, têm jornadas mais longas e as mais altas taxas de desemprego. No Distrito Federal, onde a renda per capita está no topo do ranking brasileiro, a distribuição desequilibrada de renda, trabalho, território e acesso a serviços em desfavor das mulheres negras fica evidente nos resultados da Pesquisa Distrital Por Amostra de Domicílios (PDAD 2021). Com rendimento individual médio 50% menor do que homens não-negros, elas estão na base da pirâmide social. A pesquisa mostra que o DF tem uma população negra superior à não-negra. Mas se 57,4% dos habitantes é preto ou pardo - média superior à nacional (55,8%) - eles habitam o território de maneira segregada: enquanto 32,7% vive no no Lago Sul, 75,45% é morador da SCIA-Estrutural. No acesso ao ensino formal, outro contraste: no DF, 35% da população tem nível superior completo enquanto taxa nacional é de 17,4%, o percentual de homens não-negros com nível superior é o maior (46,41%), enquanto o menor percentual é de mulheres negras (26,93%). Já na faixa “sem instrução”, o maior percentual é de mulheres negras (5,18%) contra cerca de metade para homens não-negros (2,65%). Os dados reafirmam um perfil identificado pela intelectual Lélia Gonzalez há mais de trinta anos: "Ora, na medida em que existe uma divisão racial e sexual do trabalho, não é difícil concluir sobre o processo de tríplice discriminação sofrido pela mulher negra (enquanto raça, classe e sexo), assim como sobre seu lugar na força de trabalho.", escreveu a ativista brasileira, que foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado no Brasil. No dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, o IAB/DF convida a refinar o olhar sobre a arquitetura e urbanismo a partir da condição das mulheres negras, fatia da categoria que recebe até um terço do salário que profissionais de arquitetura deveriam receber, segundo o Censo das Arquitetas e Arquitetos do Brasil, publicado pelo CAU/BR em 2020. Mais do que isso, instiga a pensar sobre a contribuição que elas trazem para o nosso campo de trabalho. "Sem óticas diversas, como a de mulheres negras, perdemos a oportunidade de ter perspectivas únicas e que denunciam as lacunas da vulnerabilidade e do racismo que o espaço urbano acaba evidenciando", afirma, na entrevista abaixo, a arquiteta e urbanista Raquel Freire, que é conselheira superior e coordenadora da Comissão de Equidade de Gênero e Raça do IAB/DF e também vice-presidente de Ações Afirmativas na Direção Nacional (IAB-DN). Formada pela Universidade de Brasília (UnB), Raquel também é artista visual, musicista e pesquisadora e, atualmente, cursa Mestrado em Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Especialização em Geoprocessamento pela PUC Minas. "Se não ampliamos os espaços de debate na arquitetura e urbanismo, podemos cair num empobrecimento e, consequentemente, uma homogeneização do espaço", assegura. Confira a entrevista completa: As mulheres negras ocupam as cidades e os espaços públicos na medida inversa em que decidem sobre eles. O que a arquitetura e o urbanismo vem perdendo com a invisibilidade dessas produtoras das cidades? Quais contribuições arquitetas e urbanistas negras tem a oferecer para o campo da arquitetura e urbanismo? Eu acredito que mulheres negras, onde ingressam, são mobilizadoras de transformação. Na arquitetura, quando a cidade é ocupada por nós mas estamos distantes dos espaços de debate e de decisão, a profissão e os âmbitos em que atuamos perdem esse poder transformador que mulheres negras têm, exatamente por elas serem atuantes diretas no combate às desigualdades no espaço urbano. Sem óticas diversas, como a de mulheres negras, perdemos a oportunidade de ter perspectivas únicas e que denunciam as lacunas da vulnerabilidade e do racismo que o espaço urbano acaba evidenciando. Se não ampliamos os espaços de debate sobre arquitetura e urbanismo, podemos cair num empobrecimento e, consequentemente, uma homogeneização do espaço. Qual a relação entre a arquitetura e urbanismo e a insegurança vivida pelas mulheres, especialmente as mulheres negras, nas cidades? A Pesquisa Distrital Por Amostra de Domicílios (PDAD) mostrou que mulheres negras são maioria no uso dos espaços livres quanto no transporte público. E nesses locais, a gente percebe uma vulnerabilidade múltipla e multifacetada. Há uma sensação de insegurança nos espaços públicos, que se soma à falta de iluminação, de acessibilidade e à ausência de requalificação dos mesmos. Junto disso, nos estudos urbanos, há evidências de uma segregação espacial, onde mulheres negras são comprovadamente maioria como população de baixa renda e periférica, e isso fica em evidência nas distâncias do centro, dos equipamentos públicos, e da qualidade de vida desejada. De que maneira o racismo estrutural se manifesta no planejamento urbano das cidades brasileiras e como a arquitetura e o urbanismo podem responder melhor às demandas das comunidades negras e periféricas? Esse ponto da segregação espacial é um grande destaque. Trabalhando com geoprocessamento, e trazendo os dados étnico-raciais do Censo para a leitura da cidade por meio do mapa, fica evidente, nessa leitura do território, como a segregação espacial revela uma cidade segregada étnico-racialmente, e não apenas socioeconomicamente. Na verdade, é nesse momento que a gente descobre que, onde essas pessoas negras moram em peso, são os lugares majoritariamente periféricos, com déficit na infraestrutura, nos equipamentos públicos urbanos, sendo espaços simbólicos de perpetuação da desigualdade racial. São efeitos simbólicos que chamamos de periferização da população negra, cada vez mais empurrada para áreas distantes. É esse também o efeito causado pela gentrificação, devido à valorização imobiliária e à falta de políticas de habitação social em regiões centrais. Enfim, são muitos os impactos dessa dinâmica do racismo para a arquitetura e urbanismo. No fim, são essas regiões periféricas as mais criminalizadas pela segurança pública, não somente por sua precarização, mas principalmente pela presença da população negra. Atualmente, um jovem negro é morto a cada 16 minutos. Há um par de anos, eram 18 minutos. Então, essa criminalização tem não somente território, mas também cor. E eu acredito que a gente consegue soluções para os territórios periféricos tenham menor desigualdade na sua estrutura e no seu desenho, e com uma diminuição desse déficit de elementos cruciais para uma qualidade de vida. Soluções como o planejamento participativo, onde a gente tem o envolvimento das comunidades periféricas, que são, em peso, formadas por população negra, por exemplo. Contar com mais projetos de revitalização urbana que valorizem a cultura e a identidade dessas comunidades que residem nas áreas periféricas. Existe uma cultura afro-brasileira presente e também outras culturas que constroem a periferia e a fortalecem numa relação coletiva, e isso tem que ser pautado dentro dos projetos de urbanismo e de planejamento urbano. Também como solução crucial, uma ênfase na relevância das políticas de habitação social para que possa haver uma centralidade urbana ocupada por pessoas com maior diversidade étnico-racial e que, de fato, sejam políticas que garantam o acesso à moradia digna para todos. Quais são os principais desafios enfrentados por mulheres negras para ingressar e se manter na profissão? Existem diferenças nas oportunidades de trabalho e reconhecimento entre arquitetas negras e não negras? Como isso se manifesta? Principalmente, e sem sombra de dúvida, a falta de oportunidades. Mulheres negras são duplamente questionadas, pois são estruturantes essenciais para a formação da família, como apontam dados do censo. A maior parte das chefes de família no Brasil, especialmente em habitações em vulnerabilidade habitacional, é composta por mulheres negras. Esse processo dificulta muito o acesso de mulheres negras à arquitetura e urbanismo, porque é uma profissão que exige uma carga horária extensa. E nós mulheres, socialmente impostas nesse lugar de cuidado da família e filho, temos infelizmente uma carga tripla ao lidarmos com uma profissão como essa no dia a dia. São atividades cotidianas exaustivas, e que geram questionamentos sobre nossa capacidade como mulher no mercado de trabalho. Somado a isso, a falta de oportunidades e de políticas afirmativas nesse processo, mesmo com o aumento recente de profissionais negros na arquitetura e urbanismo, conforme constatado em nosso primeiro censo, em 2020, realizado pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo. Além disso, todo o processo como mulher negra na sociedade brasileira, e também na nossa profissão, postos pelas barreiras sociais, econômicas e institucionais, a cara da arquitetura e o urbanismo não era feminina, e muito menos negra. Nossa profissão ainda é vista como essencialmente elitista, estruturada por profissionais brancos e com serviços para somente classes mais altas. Como se arquitetura não fosse alcançável para todas as classes e pessoas. Com o processo de colonização e racialização dos corpos negros no Brasil, nós não somos socialmente consideradas pertencentes a esses espaços. Isso resulta diretamente num racismo institucional, na falta de oportunidades e no não reconhecimento dessas profissionais, que são invisibilizadas ou desvalorizadas por esses fatores. Através do Censo do CAU (2020), sobre diversidade de gênero e raça, a gente começa a perceber que menos de 5% dos arquitetos registrados no Brasil são pessoas negras. E, quando consideramos as mulheres negras, a mesma pesquisa revela que elas recebem até um terço do salário que profissionais de arquitetura deveriam receber. Além disso, mulheres negras à frente de escritórios são menos recorrentes. E como isso impacta também a nossa visão do que é um arquiteto no mercado de trabalho? Qual a imagem desse arquiteto? Qual é o gênero? Qual é a cor desse profissional? Então, nós não somos reconhecidas como profissionais comuns, a serem encontradas de forma comum nesses espaços. E isso evidencia e dificulta a nossa presença nesses lugares. Na sua visão, a ampliação do acesso à universidade (em grande parte por meio das cotas) vem mostrando resultados na produção acadêmica e em projetos arquitetônicos que refletem as perspectivas e necessidades das mulheres negras? Sim, com certeza. Sendo eu fruto das políticas afirmativas estabelecidas nas IES, percebo que as gerações de ingressos na EAUs que sucederam essas políticas, resultaram no questionamento da arquitetura hegemônica, das referências eurocentradas e de um planejamento que não refletia a nossa realidade cotidiana como pessoas negras. É possível perceber nitidamente uma maior diversidade de temas e abordagens, o aumento de projetos inclusivos e que tentam promover uma justiça social, além de mais debates sobre questões raciais e de gênero. Essa presença de mulheres negras na pós graduação é o próximo desafio. Com as políticas afirmativas para pós instaurada desde 2023 em âmbito nacional, a gente sonha com esse aumento da presença de professoras negras, com responsabilização política, a fim de decolonializar o ensino da arquitetura também dentro das salas de aulas, e contribuindo pro aumento de uma diversidade de raça e gênero nos corpos docentes das escolas de arquitetura e urbanismo. Como você avalia o tratamento da pauta racial nas instituições de classe? O que evoluiu e o que ainda precisa avançar? O tratamento da pauta racial nas instituições da nossa classe tem evoluído, mas ainda há muito a ser feito. Algumas instituições como o IAB, entidade centenária da arquitetura, e o recém estabelecido CAU, têm promovido debates e eventos sobre questões raciais e de gênero, e têm criado comissões e grupos de trabalho para tratar do tema. Porém, a pauta racial ainda é marginalizada quando pensamos na mudança efetiva para as políticas profissionais e há baixa representatividade de mulheres negras em cargos de liderança nessa entidade, autarquias e espaço de decisão sobre as políticas da nossa profissão. É preciso avançar em políticas de inclusão e diversidade de forma urgente para que garantam a representatividade de mulheres negras em todos os níveis da instituição. Assim como também elaborar programas de capacitação e mentoria que apoiem o desenvolvimento profissional de mulheres negras. Mas, principalmente, o combate institucional efetivo ao racismo e à discriminação, que criem políticas para ambiente de trabalhos na arquitetura e urbanismo que sejam mais justos e inclusivos. Qual é a importância de espaços afetivos e movimentos de aquilombamento em uma profissão que se referencia em parâmetros coloniais e eurocêntricos? Para mim, os espaços afetivos para pessoas negras na arquitetura são essencialmente espaços de organização para pautar mudanças significativas. Ou seja, para o nosso campo profissional e nossas formas de abordar a coletividade, o afeto é político. Por isso, a importância dos espaços afetivos e movimentos de aquilombamento em uma profissão que ainda se referencia em parâmetros coloniais e eurocentrados é fundamental. Acredito que esses espaços são cruciais para fortalecer nossa identidade, permitindo que nós, mulheres negras, possamos nos conectar com nossas identidades, de ser e de ver o mundo, e principalmente de fortalecer nossa permanência nesses espaços, onde somos poucas. Nesses espaços de coletividade, também temos a oportunidade de trocar experiências, saberes, vivências e conhecimentos, criando assim uma rede de apoio e solidariedade. Além disso, esses espaços são importantes para buscarmos esse poder transformador, para nós, e de combate ao racismo e à discriminação, para o mundo. Consequentemente, a abertura de espaços de afeto e aquilombamento na arquitetura e urbanismo é um ponto de firmamento essencial para transformarmos a profissão em um campo mais justo e inclusivo. IAB/DF e Icomos-DF promovem nova turma do curso Fundamentos de conservação e intervenção em edifícios do Plano Piloto de Brasília, em edição especial voltada para pessoas com formação em Arquitetura ou Engenharia.
O curso terá 4 aulas e uma visita técnica, de 18 de agosto a 8 de setembro de 2025, e abordará conceitos, procedimentos técnicos e ferramentas de projeto voltados para uma melhor conservação e melhores intervenções nos imóveis do Plano Piloto de Brasília. As atividades serão presenciais, com aulas noturnas na sede do IAB/DF, no Setor Comercial Sul. Professoras e professores são arquitetos-urbanistas e engenheiros civis, com formação acadêmica e experiência na área, que lhes permitirá dar uma abordagem prática ao tema, voltada para os casos que se enfrentam na prática profissional. Assuntos abordados: - Valorizando a arquitetura de Brasília - Ferramentas contemporâneas de levantamento e projeto - Boas práticas de manutenção em blocos de superquadras - Recuperação de sistemas construtivos típicos de Brasília - Lidando com os tombamentos de Brasília - Selo CAU, critérios e concessão - Plano de Conservação preventiva - Questões recorrentes de projeto em blocos de superquadras Programação e ementa: https://docs.google.com/document/d/1K7YDQoWBrYxkvpXOMLSwgoc9EQ_wqPfsx5MWp7jgVis/edit?usp=sharing Valor total: 400 reais Pagamentos através do PIX: [email protected] Desconto de 20% para: Associados ao ICOMOS-DF e IAB/DF; pretos, pardos ou indígenas; estudantes; pessoa com deficiência. Serão concedidas 2 bolsas integrais para: integrantes do CadÚnico e/ou oriuntos de cotas sociais e raciais. Formulário para inscrição: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSc1IDzYVl9LDZZwNTCxCdFZopXFylQYI7Dma8DXu-mfRne_cA/viewform?usp=header Formulário para solicitação de bolsa: https://forms.gle/rSNcWSBph5juCDei8 O IAB/DF realizou sua Assembleia Geral Ordinária com ampla participação de associados/as no dia 25 de junho. O encontro, realizado de forma presencial no escritório da entidade, debateu dois temas importantes que reforçaram a institucionalidade e o caráter cultural, político e associativo do IAB: a gestão imobiliária e a aprovação do novo estatuto social.
Sede social e desafios imobiliários A situação da sede social do Instituto, que tem apresentado problemas devido à subutilização, foi pauta do encontro. A falta de ocupação do espaço tem levado a ocorrências como ocupações irregulares e deterioração da estrutura, demandando ações urgentes. Os associados avaliaram propostas para otimizar o uso do local e garantir sua preservação e funcionalidade a serviço dos profissionais do DF. O IAB/DF vem buscando diálogo com o CAU/BR para avançar na execução do contrato para a construção de uma sede conjunta, conforme contrato assinado em 2016 e cujo projeto foi escolhido por meio de concurso público nacional. Modernização estatutária Outro tema em destaque foi a discussão e aprovação do novo estatuto da associação, que passa por atualizações. Entre as principais mudanças, está a reestruturação da nominata da diretoria, com a criação de novos cargos e a redistribuição de atribuições para melhorar a gestão e a representatividade da entidade. Foi criada uma diretoria exclusiva para a comunicação, pasta atualmente acumulada pela diretoria cultural, visando fortalecer o IAB enquanto entidade cultural das/os arquitetos e aprimorar as ações de comunicação com seus associados e com a população do DF. O novo estatuto também aprimora o processo eleitoral, oferecendo maior segurança e responsabilidade na formação de chapas. A proposta foi aprovada por unanimidade pela maioria dos presentes, marcando um avanço na modernização da associação. Participação expressiva O evento contou com uma expressiva presença de arquitetos associados, reforçando o engajamento da categoria nas decisões institucionais. A assembleia abriu os trabalhos com quórum bastante superior ao mínimo exigido para mudança de estatuto. Para o presidente do IAB/DF, arquiteto Luiz Eduardo Sarmento, as discussões superaram as expectativas. “Foi possível avançar na busca de soluções para problemas da entidade mas, principalmente, foi um momento oportuno para pensar o futuro do IAB”, afirmou. Ele destacou ainda o caráter unânime das aprovações do novo estatuto e dos encaminhamentos acerca do patrimônio imobiliário do IAB/DF. “São deliberações que permitirão a adequação do IAB/DF aos desafios e possibilidades do mundo contemporâneo, e irão possibilitar que o nosso instituto siga focando em ser a entidade cultural dos arquitetos, com independência e potência”, avaliou. A Associação agradece a todos os participantes e reafirma seu compromisso com a transparência e a evolução constante em prol da arquitetura e dos profissionais da área. 📢 Convocatória IAB/DF – 6ª Conferência Distrital das Cidades
Olá, pessoal! No dia 05/07 (sábado), das 8h às 13h, na ADUnB (Plano Piloto), acontece a Etapa Preparatória Central e Leste da 6ª CDC, com o tema: 🎯 Construindo a Política Nacional de Desenvolvimento Urbano: caminhos para cidades inclusivas, democráticas, sustentáveis e com justiça social.” Vamos eleger delegadas(os) para a Etapa Distrital e o IAB/DF poderá disputar no segmento “Entidades Profissionais, Acadêmicas e de Pesquisa”, com carta de indicação institucional. ➡️ Escritórios de arquitetura podem se inscrever pelo segmento Empresarial. ➡️ Coletivos e associações com CNPJ podem participar como Organizações Não Governamentais (ONGs/OSCs). 📲 Inscrições até 04/07: [https://6conferenciadistritalcidades.seduh.df.gov.br] Mas pode fazer inscrição no local no dia 5/07 de 8 as 10 horas, ADUnB . 📄 Solicite os modelos de declaração de vínculo ou anuência institucional pelo e-mail 📧 [[email protected]] ou no grupo institucional _Os documentos podem ser entregues após a eleição do dia 5/07_. Vamos juntos fortalecer a presença da arquitetura e do urbanismo nas decisões sobre o futuro das cidades! ✊🏽🏘️ |
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Dezembro 2025
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