Anais do 4° Seminário Mulher, Cidade e Arquitetura: refaçamos a vida
APRESENTAÇÃO:
"No contexto em que vivemos, nossos corpos são há séculos classificados com base em hierarquias e diferenças, que obstruem a nossa inserção na sociedade. Não somos um sujeito universal abstrato como proposto pelos modernos, temos muitas interseccionalidades que nos atravessam. Como alerta Federici, “a análise da posição social das mulheres pelo prisma da exploração capitalista do trabalho também revela a continuidade entre a discriminação com base no gênero e a discriminação com base na raça”. Se por um lado algumas de nós conseguiram avançar em espaços e direitos, esse processo de inserção feminina no mercado de trabalho é também permeado pela lógica do capital, que reproduz desigualdades e cria novas formas de exploração.
Entre o ter e o existir, pautado sempre pelas responsabilidades de cuidado para com o outro, somos nós as mulheres as mais endivida das e sem acesso a moradias dignas para nós e nossas famílias, privadas de mobilidade social, em subposições predeterminadas, estanques e em um processo contínuo de empobrecimento. A capitalização da vida, com a mercantilização de direitos básicos para exercício da cidadania, como saúde, educação, moradia, cultura, segurança, faz parte do processo de desmante lamento do Estado de bem-estar social. Onde a maioria da população contraem dívidas para subsidiar aquilo que antes cabia ao Estado, para suprir as lacunas alargadas pelo descomprimento das funções sociais da cidade.
Existem formas de “fortalecer a cooperação social, minar o controle do mercado e do Estado sobre nossa vida, promover o compartilhamento de riquezas e, assim, estabelecer limites à acumulação de capital”? (FEDERICI, 2022, p. 225-226) As cidades e os territórios em que vivemos também são objetos de projetos de segregação, deixando às margens e alienando dos espaços públicos as pessoas que não interessam ou não se assemelham aos detentores de poder. Para uma efetiva reparação, é preciso refazer esse arranjo com a participação desses outros, dos renegados, dos corpos atravessados por opressões, das múltiplas experiências de experimentação dos espaços de vivência e convivência.
Como podemos efetivamente sensibilizar e engajar gestores públicos e atores sociais para a urgência de que as políticas urbanas e ambientais abarquem e se alinhem a projetos de inclusão e equidade?
Em algum momento da história se defendeu a ideia de que a industrialização e a modernidade reduziriam o trabalho do cuidado. Numa ideia futurista ultrapassada, para a maioria da população, de que teríamos mais tempo para o ócio. E, o que vemos é o estar constantemente conectados, eliminar os limites das jornadas de trabalho e roubar cada vez mais o nosso tempo para além da produção. Num ato de reexistência, temos a multiplicação das lutas em defesa de nossos bens comuns naturais (terra, água, florestas) e a criação de atividades comunais (cozinhas comunitárias, hortas coletivas).
A vida cotidiana não pode ser arisca ao trabalho reprodutivo, majoritariamente feminino, privando e excluindo as mulheres do ambiente urbano. Essa discussão passa obrigatoriamente pela compreensão do conceito de “trabalho de mulher”, “instinto maternal”, que separa o trabalho assalariado do trabalho não remunera do. Esta atribuição de papéis, em uma economia cada vez menos solidária, reafirma um lugar de domesticidade que continua levando as mulheres a renunciarem às suas carreiras para se ocupar com os cuidados com a família ou a terceirização dos cuidados à mulheres não--brancas e mais pobres. Retirando dos espaços de discussão, construção e reconhecimento o debate sobre as responsabilidades do cuidado e sua importância para manutenção da vida e da sociedade.
Estamos enveredando por percursos de afastamento e solidão, de proliferação de centros urbanos e periferias insensíveis ao abandono, devastadores da paisagem e cada vez mais opressores aos encontros e permanências, das relações humanas, e dos saberes ancestrais.
Como propõe a autora, é preciso “desprivatizar nossa vida cotidiana e criar formas cooperativas de reprodução”, como conceito de “rurbano” apresentado como uma forma de “multiplicação de movimentos de ocupação de terras, de guerras pela água, e a persistência de práticas de solidariedade.”
Assim como FEDERICI, propomos a palavra ENCANTAMENTO para sonhar e vislumbrar um novo mundo cada vez mais solidário e inclusivo. Com este amplo olhar sobre a história e o presente dos nossos espaços, queremos conhecer questionamentos e formular proposições de futuros mais convidativos."
(...)
Maribel Del Carmen Aliaga Fuentes
Coordenação Executiva do Seminário Mulher, Cidade e Arquitetura
"No contexto em que vivemos, nossos corpos são há séculos classificados com base em hierarquias e diferenças, que obstruem a nossa inserção na sociedade. Não somos um sujeito universal abstrato como proposto pelos modernos, temos muitas interseccionalidades que nos atravessam. Como alerta Federici, “a análise da posição social das mulheres pelo prisma da exploração capitalista do trabalho também revela a continuidade entre a discriminação com base no gênero e a discriminação com base na raça”. Se por um lado algumas de nós conseguiram avançar em espaços e direitos, esse processo de inserção feminina no mercado de trabalho é também permeado pela lógica do capital, que reproduz desigualdades e cria novas formas de exploração.
Entre o ter e o existir, pautado sempre pelas responsabilidades de cuidado para com o outro, somos nós as mulheres as mais endivida das e sem acesso a moradias dignas para nós e nossas famílias, privadas de mobilidade social, em subposições predeterminadas, estanques e em um processo contínuo de empobrecimento. A capitalização da vida, com a mercantilização de direitos básicos para exercício da cidadania, como saúde, educação, moradia, cultura, segurança, faz parte do processo de desmante lamento do Estado de bem-estar social. Onde a maioria da população contraem dívidas para subsidiar aquilo que antes cabia ao Estado, para suprir as lacunas alargadas pelo descomprimento das funções sociais da cidade.
Existem formas de “fortalecer a cooperação social, minar o controle do mercado e do Estado sobre nossa vida, promover o compartilhamento de riquezas e, assim, estabelecer limites à acumulação de capital”? (FEDERICI, 2022, p. 225-226) As cidades e os territórios em que vivemos também são objetos de projetos de segregação, deixando às margens e alienando dos espaços públicos as pessoas que não interessam ou não se assemelham aos detentores de poder. Para uma efetiva reparação, é preciso refazer esse arranjo com a participação desses outros, dos renegados, dos corpos atravessados por opressões, das múltiplas experiências de experimentação dos espaços de vivência e convivência.
Como podemos efetivamente sensibilizar e engajar gestores públicos e atores sociais para a urgência de que as políticas urbanas e ambientais abarquem e se alinhem a projetos de inclusão e equidade?
Em algum momento da história se defendeu a ideia de que a industrialização e a modernidade reduziriam o trabalho do cuidado. Numa ideia futurista ultrapassada, para a maioria da população, de que teríamos mais tempo para o ócio. E, o que vemos é o estar constantemente conectados, eliminar os limites das jornadas de trabalho e roubar cada vez mais o nosso tempo para além da produção. Num ato de reexistência, temos a multiplicação das lutas em defesa de nossos bens comuns naturais (terra, água, florestas) e a criação de atividades comunais (cozinhas comunitárias, hortas coletivas).
A vida cotidiana não pode ser arisca ao trabalho reprodutivo, majoritariamente feminino, privando e excluindo as mulheres do ambiente urbano. Essa discussão passa obrigatoriamente pela compreensão do conceito de “trabalho de mulher”, “instinto maternal”, que separa o trabalho assalariado do trabalho não remunera do. Esta atribuição de papéis, em uma economia cada vez menos solidária, reafirma um lugar de domesticidade que continua levando as mulheres a renunciarem às suas carreiras para se ocupar com os cuidados com a família ou a terceirização dos cuidados à mulheres não--brancas e mais pobres. Retirando dos espaços de discussão, construção e reconhecimento o debate sobre as responsabilidades do cuidado e sua importância para manutenção da vida e da sociedade.
Estamos enveredando por percursos de afastamento e solidão, de proliferação de centros urbanos e periferias insensíveis ao abandono, devastadores da paisagem e cada vez mais opressores aos encontros e permanências, das relações humanas, e dos saberes ancestrais.
Como propõe a autora, é preciso “desprivatizar nossa vida cotidiana e criar formas cooperativas de reprodução”, como conceito de “rurbano” apresentado como uma forma de “multiplicação de movimentos de ocupação de terras, de guerras pela água, e a persistência de práticas de solidariedade.”
Assim como FEDERICI, propomos a palavra ENCANTAMENTO para sonhar e vislumbrar um novo mundo cada vez mais solidário e inclusivo. Com este amplo olhar sobre a história e o presente dos nossos espaços, queremos conhecer questionamentos e formular proposições de futuros mais convidativos."
(...)
Maribel Del Carmen Aliaga Fuentes
Coordenação Executiva do Seminário Mulher, Cidade e Arquitetura
2º Colóquio "Mulher, Cidade e Arquitetura na pandemia " - Caderno de Depoimentos
APRESENTAÇÃO:
"O 1º Colóquio: Mulher, Cidade e Arquitetura, aconteceu entre os dias 17 e 18 de outubro de 2019 em Salvador, Bahia e foi organizado pelos Grupos de Pesquisa LAB20 do PPGAU/ UFBA e ELAS da FAU da FAU/UnB.
O evento surgiu com um duplo objetivo: discutir a arquitetura e o urbanismo a partir da experiência e contribuição das mulheres na cidade e promover a aproximação de pesquisadoras e pesquisadores que vinham se debruçando sobre essa temática, a partir de múltiplas e diversas perspectivas.
Nesse sentido, por um lado, o Colóquio foi estruturado a partir de uma série de atividades como Mesas Redondas, Rodas de Diálogos e exibição de filmes e documentários sobre o tema; e, pelo outro, levou em consideração a participação de professores/pesquisadores da FAUFBA, da UnB, IAB-BA, UNIJORGE, além de representantes de associações como o Coletivo Casa Moxtra/Viadagem Política.
No total, o evento contou com mais de 60 participantes dentre eles, estudantes de graduação e pós-graduação, professores, pesquisadores, membros da sociedade civil, e público em geral interessado na temática.
O 2º Colóquio Mulher, Cidade e Arquitetura - Na Pandemia foi um evento realizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento Distrito Federal em conjunto com o Observatório Amar.é.linha FAU-UnB, Lab20 PPGAU-UFBA, Vice Presidência Extraordinária de Ações Afirmativa IAB, Coletiva Arquitetas inVisíveis e Sindicato dos Arquitetos do DF, e contou com patrocínio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal.
O encontro, que teve Brasília como sede organizadora, foi realizado de forma virtual, entre os dias 26 e 27 de março de 2021, porém mantendo a tradição de envolver os grupos na organização. O evento teve 300 inscrições e agora com o lançamento do Ebook e a abertura das mesas no canal do YouTube, pretendemos chegar a um número ainda maior de pessoas. De 2019 para 2021, muita coisa mudou e, infelizmente, as questões ligadas às mulheres, profissão e cidade, sofreram e retrocederam pela situação política e econômica que enfrenta o país, aliada à grave situação da pandemia mundial. Dentro desta perspectiva, entendemos que era necessário ampliar o debate, buscando o estado da arte das pesquisas, além de fortalecer os grupos ativos. Também quisemos trazer para o evento, um debate sobre o espaço das mulheres na profissão e na participação política. Se a cidade, no nosso entendimento é espaço das mulheres, queremos ouvir as que fazem parte do seu cotidiano e entender as questões da cidade, por quem vive nela e dela."
Maribel Maribel Del Carmen Aliaga Fuentes
José Carlos Huapaya Espinoza
Coordenação Geral do Colóquio Mulher, Cidade e Arquitetura
"O 1º Colóquio: Mulher, Cidade e Arquitetura, aconteceu entre os dias 17 e 18 de outubro de 2019 em Salvador, Bahia e foi organizado pelos Grupos de Pesquisa LAB20 do PPGAU/ UFBA e ELAS da FAU da FAU/UnB.
O evento surgiu com um duplo objetivo: discutir a arquitetura e o urbanismo a partir da experiência e contribuição das mulheres na cidade e promover a aproximação de pesquisadoras e pesquisadores que vinham se debruçando sobre essa temática, a partir de múltiplas e diversas perspectivas.
Nesse sentido, por um lado, o Colóquio foi estruturado a partir de uma série de atividades como Mesas Redondas, Rodas de Diálogos e exibição de filmes e documentários sobre o tema; e, pelo outro, levou em consideração a participação de professores/pesquisadores da FAUFBA, da UnB, IAB-BA, UNIJORGE, além de representantes de associações como o Coletivo Casa Moxtra/Viadagem Política.
No total, o evento contou com mais de 60 participantes dentre eles, estudantes de graduação e pós-graduação, professores, pesquisadores, membros da sociedade civil, e público em geral interessado na temática.
O 2º Colóquio Mulher, Cidade e Arquitetura - Na Pandemia foi um evento realizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento Distrito Federal em conjunto com o Observatório Amar.é.linha FAU-UnB, Lab20 PPGAU-UFBA, Vice Presidência Extraordinária de Ações Afirmativa IAB, Coletiva Arquitetas inVisíveis e Sindicato dos Arquitetos do DF, e contou com patrocínio do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal.
O encontro, que teve Brasília como sede organizadora, foi realizado de forma virtual, entre os dias 26 e 27 de março de 2021, porém mantendo a tradição de envolver os grupos na organização. O evento teve 300 inscrições e agora com o lançamento do Ebook e a abertura das mesas no canal do YouTube, pretendemos chegar a um número ainda maior de pessoas. De 2019 para 2021, muita coisa mudou e, infelizmente, as questões ligadas às mulheres, profissão e cidade, sofreram e retrocederam pela situação política e econômica que enfrenta o país, aliada à grave situação da pandemia mundial. Dentro desta perspectiva, entendemos que era necessário ampliar o debate, buscando o estado da arte das pesquisas, além de fortalecer os grupos ativos. Também quisemos trazer para o evento, um debate sobre o espaço das mulheres na profissão e na participação política. Se a cidade, no nosso entendimento é espaço das mulheres, queremos ouvir as que fazem parte do seu cotidiano e entender as questões da cidade, por quem vive nela e dela."
Maribel Maribel Del Carmen Aliaga Fuentes
José Carlos Huapaya Espinoza
Coordenação Geral do Colóquio Mulher, Cidade e Arquitetura