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31 de Julho, Dia Nacional da Arquiteta e Urbanista

exto por Cláudia Sales de Alcântara, parceira IAB/DF.
31 de julho de 2026

O Dia Nacional da Arquiteta e Urbanista foi instituído pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo como uma importante conquista das mulheres que ocuparam esse espaço e compreenderam a necessidade de criar uma data capaz de celebrar, reconhecer e dar visibilidade à presença feminina na arquitetura e no urbanismo.


Essa conquista é significativa. Afinal, a historiografia da arquitetura foi construída, em grande medida, em torno dos grandes homens: os arquitetos consagrados, os teóricos, os professores, as grandes referências do campo. Durante muito tempo, os nomes que aprendemos a reconhecer como fundamentais para a arquitetura foram, majoritariamente, nomes masculinos.

No entanto, essa narrativa entra em contradição com a realidade da profissão. Hoje, as mulheres representam a maioria das pessoas que exercem a arquitetura e o urbanismo no Brasil. Instituir uma data como esta é, portanto, um gesto de reparação simbólica e de reconhecimento de uma presença que sempre existiu, mas que nem sempre foi registrada pela história.

Também é verdade que muitas arquitetas tiveram seus nomes apagados da historiografia oficial, permanecendo à sombra de seus companheiros, mesmo quando participaram decisivamente da elaboração de projetos e da construção do pensamento arquitetônico. Reconhecer essa invisibilização também é reconhecer uma importante conquista das lutas feministas.

Mas, em um país tão diverso como o Brasil, celebrar apenas a categoria "mulher" já não é suficiente.

O feminismo, felizmente, já não é um só. Hoje, ele é múltiplo, plural e atravessado por diferentes experiências, sujeitos e perspectivas. As contribuições dos feminismos negros, indígenas, decoloniais, comunitários, periféricos e trans ampliaram profundamente nossa compreensão sobre as desigualdades e sobre quem são as mulheres cujas vidas importam para a luta política.

Entretanto, apesar dessa pluralidade, ainda é o feminismo hegemônico  (historicamente construído a partir da experiência de mulheres brancas, de classe média e heterossexuais) que ocupa o centro do imaginário social quando pensamos no que significa ser mulher e quais direitos estão sendo reivindicados.

Essa constatação não diminui a importância das conquistas históricas desse feminismo. O direito ao trabalho, à autonomia econômica, à participação política e à ocupação dos espaços públicos foram transformações fundamentais. Mas essas reivindicações nunca contemplaram igualmente todas as mulheres.

As mulheres negras, por exemplo, nunca precisaram reivindicar o direito ao trabalho. Elas sempre trabalharam  (e trabalharam muito!). O que reivindicam é o direito a um trabalho digno, valorizado e reconhecido, que não as restrinja à subalternidade nem lhes negue o direito de produzir conhecimento, ocupar espaços de decisão e exercer plenamente sua intelectualidade.

Historicamente, seus corpos foram associados ao trabalho braçal, ao cuidado e à servidão, enquanto lhes era negado o reconhecimento como produtoras de pensamento, ciência e cultura. Ainda hoje, são elas que enfrentam os menores salários, maiores índices de desemprego e as diferentes formas de violência.

As mulheres indígenas, por sua vez, estabelecem outras relações com o trabalho, com o território e com a produção da vida, desafiando a lógica produtivista e capitalista que estruturou grande parte do pensamento moderno ocidental. Seus modos de existir, seus saberes e suas formas de construir território também nos convidam a repensar a própria arquitetura e o urbanismo.

As mulheres trans seguem enfrentando enormes barreiras para acessar a educação, concluir sua formação e ingressar no mercado profissional. Muitas sequer aparecem nas estatísticas. A invisibilidade também é uma forma de violência.

Por isso, a pergunta que continua ecoando é: de que mulher arquiteta e urbanista estamos falando?

Quem está sendo celebrada hoje? Quais trajetórias são reconhecidas? Quais experiências continuam ausentes?
Essa pergunta não vale apenas para o feminismo. Ela também precisa ser feita à própria arquitetura e ao urbanismo.
É inegável que as mulheres vêm conquistando espaços historicamente negados. Hoje publicam mais livros, recebem mais premiações, ocupam cargos de liderança, coordenam pesquisas, dirigem escritórios e aparecem com maior frequência nos debates sobre a profissão. Essas conquistas merecem ser celebradas.

Mas, novamente, é preciso perguntar: quais mulheres estão sendo vistas?

Quando observamos os marcadores de raça, percebemos que esses avanços não alcançaram todas da mesma forma. Dentro da própria profissão, as mulheres negras continuam concentrando os menores rendimentos, os maiores índices de desemprego e são as principais vítimas de assédio moral e sexual no exercício profissional.

Ao mesmo tempo, a realidade das mulheres indígenas e das mulheres trans permanece profundamente invisibilizada. A ausência de dados também comunica. Ela revela quem ainda não consegue acessar a formação, permanecer na universidade, ingressar na profissão ou ser reconhecida como parte legítima desse campo.

Por isso, não basta comemorar que a arquitetura tenha, hoje, mais mulheres em posições de destaque. É preciso perguntar quem continua fora da fotografia.

Não basta celebrar a presença feminina. É preciso pluralizar a própria categoria "mulher", reconhecendo que gênero nunca atua sozinho e que raça, classe, território, sexualidade, identidade de gênero e outros marcadores produzem experiências muito distintas dentro da profissão.

Enquanto algumas mulheres finalmente entram para a história da arquitetura, outras ainda lutam, antes de tudo, pelo direito de existir dentro dela.

Existir, permanecer e ser reconhecida também é uma forma de produção de conhecimento.

Uma arquitetura verdadeiramente comprometida com a justiça não se mede apenas pelo número de mulheres que a compõem. Mede-se pela capacidade de reconhecer a diversidade de suas trajetórias, reparar invisibilizações históricas e construir um campo onde todas possam existir, permanecer, produzir conhecimento e ser lembradas.

Que o Dia Nacional da Arquiteta e Urbanista seja, cada vez mais, um convite não apenas à celebração, mas também ao compromisso permanente com uma arquitetura antirracista, decolonial e verdadeiramente plural.

Porque celebrar as mulheres só faz sentido quando somos capazes de reconhecer a diversidade das mulheres que constroem nossas cidades e imaginar futuros em que nenhuma delas permaneça invisível.
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